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Vinicius e a sua história do jazz e seus intérpretes

Textos do poeta sobre o gênero aliam precisão na análise histórica com julgamentos estéticos bastante pessoais

João Marcos Coelho, especial para o Estado,

14 de julho de 2013 | 17h28

O prefácio de Eucanaã Ferraz para o livro Jazz & Co. é tão rico e emoldura de modo tão preciso os textos de Vinicius de Moraes sobre o gênero que acaba desarmando as surpresas da leitura. Por isso, amigo leitor, se conseguir resistir, pule o prefácio e vá direto a outro prefácio, desta vez assinado pelo poetinha, a respeito de outro livro sobre o tema, Jazz Panorama, de Jorge Guinle. É chocantemente revelador. Ali Vinicius se assume um purista radical em relação ao jazz. Critica o "ecletismo" de Guinle, que julga "prejudicial dentro de um critério rígido de julgamento do que é e não é bom jazz". E decreta: "Na história da evolução do jazz, apenas um estilo apresenta características capazes de defini-lo como forma imortal: o estilo New Orleans, tal como foi executado por uns poucos mestres".

A sequência compõe-se de recusas sistemáticas de tudo que veio depois. Sobre as big bands dos anos 30/40, observa que "os elementos orquestrais começam a retirar ao jazz a sua crispação polifônica própria e a emasculá-lo com a introdução de certas formas fáceis de sofisticação do tempo". O bebop é um beco sem saída: "... apenas uma procura de caminho dentro de um insolúvel impasse".

Agora sim, já informado sobre o horizonte jazzístico do poetinha, entregue-se a este texto sedutoramente preconceituoso (Vinicius é ótimo até quando a gente discorda dele). Conviveu, entre 1946 e 1950, quando morou em Los Angeles, com os maiores jazzmen, e depois conheceu o "jazz hot" em Paris entre 1953 e 1956.

A primeira parte, histórica, é consistente. Recua ao primeiro navio de escravos desembarcados no sul dos EUA, no século 17; passa pelo spiritual, explica como e por que o blues é a matriz nuclear do gênero (Bessie Smith é, para ele, a máxima cantora do gênero). Descreve, na New Orleans da virada dos séculos 19/20, as gradações de cor, do preto até o branco, passando pelo "creole", e as prostitutas ‘descoloridas’ dos bordeis da cidade-berço do jazz onde nasceram os criadores do gênero como Buddy Bolden, Jelly Roll Morton e Louis Armstrong.

Responde à pergunta irrespondível - "o que é jazz" - de modo criativo: "Jazz é tudo que não é Bing Crosby, Sinatra, Doris Day (...) Jazz é qualquer nota que saia do trompete de Armstrong ou de suas cordas vocais. Jazz não é nunca Gershwin, Cole Porter, Hammerstein I ou II. Jazz, minha amiga, é justamente esse galo que você ouviu cantar e não sabe onde". Por falar em Gershwin, o autor da Rhapsody in Blue é seu saco de pancadas preferencial. Chamado de "reverendíssima besta" e "o melhor dos três piores músicos do mundo".

Ao mostrar por que jazz é interpretação, dá um exemplo matador: "Se colocarmos a mesma pauta musical diante de um Duke Ellington e um Guy Lombardo, o produto resultante será diferente como a água e o vinho. Duke, apesar de seguir a pauta, dará a cada elemento de sua orquestra essa liberdade de criação sem a qual o jazz não existe. Guy Lombardo escorregará sobre a pauta obediente à anotação diatônica, incapaz de aproveitar-se desses múltiplos elementos que existem misteriosamente entre cada nota (...). Num, o jazz tem dignidade. No outro, é uma das formas mais indignas que jamais existiram (...)".

É esquisito, mas Vinicius rejeita o bebop de Parker e Monk e ao mesmo tempo elogia o west coast de Shorty Rogers, Gerry Mulligan, Shelly Mane, Chet Baker (com uma maneira de cantar determinante para João Gilberto) e Stan Getz. Os fundamentos do west coast e da bossa nova são comuns a ponto de o poetinha declarar que a bossa nova é "uma filha moderna do samba tradicional, que teve o seu namoro com o jazz, sobretudo o chamado ‘west coast’". No artigo Contracapa para Paul Winter (em Para uma Menina com uma Flor, Companhia das Letras, 2009), Vinicius vai aos detalhes: "A verdadeira e orgânica influência do jazz no moderno samba brasileiro está na liberdade da improvisação que criou para os instrumentos e também na orientação do uso do tecido harmônico, que veste a melodia com uma graça e leveza desconhecidas no samba antigo mais escorado no ritmo e na percussão".

Apesar de irremediavelmente datado, Jazz & Co. é não apenas a digressão jazzística descartável de um cat (fã, no jargão dos anos 40), mas texto de um especialista no gênero. E forma um duo perfeito de visões brasileiras do jazz com o ótimo Jazz Panorama, publicado por Jorge Guinle em 1953.

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