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Vinicius de Moraes vai se tornar parceiro de Marcos Valle

Músico recebeu de Carlos Lyra canção inédita do poeta, cujo centenário de nascimento é comemorado este mês

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

24 de outubro de 2013 | 18h43

A transfiguração de Marcos Valle se deu em um fenômeno lento e gradual, como se o próprio Vinicius de Morais aparecesse diante de si, de violão e copo de uísque em punho. Valle se sentou à mesa porque alguém disse que todos deviam se sentar e olhou para o orador Carlos Lyra porque alguém avisou que ele falaria alguma coisa. Era uma noite quente no Rio de Janeiro, de sorrisos e abraços, um jantar entre amigos que queriam “beber” os 100 anos que Vinicius de Morais faria no último sábado.

Lyra ficou de pé e Magda, sua mulher, sacou o celular e preparou a filmagem. “Pronto!”, ela avisou. E Lyra começou: “Eu estou aqui para preencher uma lacuna. Vinicius já se foi e não deu tempo para ele fazer muita coisa. Agora, nós herdeiros podemos completar essas coisas que ele não fez”. O alarme soou e os olhos de Valle deram uma piscada nervosa e involuntária. Seguiu Lyra: “Pois bem. Recentemente, jornalistas me trouxeram umas letras que eu não conhecia. E estava lá anotado: “Letra de Vinicius e música de Carlos Lyra”. Fiquei olhando e disse: ‘Meu Deus, que letras são essas?’”

Lyra devia estar anunciando que faria uma música em homenagem ao parceiro com quem criou tantas maravilhas. Valle ouvia: “E então me ocorreu algo interessante: acho uma injustiça neste mundo, tem gente que nunca fez uma parceria com Vinicius, talvez por falta de oportunidade”. Era outro alarme. Valle viu o celular de Magda apontado para ele e sentiu as paredes do mundo se fechando a seu redor com as próximas palavras de Lyra. “Guardei essa letra para realizar uma parceria que nunca houve: uma parceria de Vinicius de Morais com Marcos Valle.” Valle descruzou os braços, olhou para baixo, ameaçou desabar e soltou um palavrão por duas vezes.

Os versos inéditos que Lyra recebeu das mãos de jornalistas é Amando Demais. Lyra gravava a música em fitas cassete para seu parceiro fazer a letra quando bem entendesse. E esta, de 1967, Vinicius fez quando Lyra vivia no México. Sem saber do paradeiro da fita, Lyra não faz mais ideia de qual seria a harmonia, muito menos a melodia que conduziria aqueles versos colocados mais tarde pelo poeta. Ele pensou primeiro em fazer outra canção, até que teve a ideia de presentear o amigo: “Eu queria preencher esta lacuna da história deixando o Marcos se tornar parceiro do Vinicius”.

Marcos Valle quer começar a fazer a música já neste fim de semana. Os versos de Vinicius não soam como se fossem de segunda mão, o que deixa intrigante o fato de jamais terem sido gravados. “Uma saudade que alegra a gente, uma tristeza cheia de paz. Provavelmente eu ando amando demais...”

Valle quer lançar a “nova” canção de Vinicius em uma gravação com a cantora norte-americana Stacey Kent, com quem gravou um disco recentemente para comemorar seus 50 anos de carreira. “Ela canta com um português cada vez melhor. É o que penso agora, vamos ver.” De qualquer forma, promete fazer jus à confiança de Lyra e aos versos apaixonados de um parceiro que, aos 100 anos de idade, não perde a mania de emocionar.

A previsão que Vinicius errou

O rapaz loiro de franja caindo sobre os olhos não despertava confiança em Vinicius de Moraes, sobretudo pela quantidade de mulheres suspirando ao seu redor. “É mais charme para as meninas do que música”, escreveu o poeta certa vez em uma impiedosa crítica de jornal. O menino era Marcos Valle, recém-chegado às rodas de bossa nova da zona sul carioca pelas mãos do amigo de colégio, Edu Lobo. “A primeira a que fui foi na casa do Ary Barroso. A segunda, na casa de Vinicius”, lembra o próprio.

Foi uma das poucas vezes que Vinicius errou. E errou feio, tanto que voltou a escrever sobre o rapaz pouco tempo depois, refazendo aquilo que ele mesmo reconheceria como sendo uma grande injustiça. “Marcos Valle, Edu Lobo, Francis Hime e Dori Caymmi são os maiores compositores que temos na nova geração”, cravou ele.

As parcerias entre os dois não existiram porque, no entender de Valle, havia muito respeito às duplas que trabalhavam juntas naquela época. “Eu já fazia música com meu irmão, o Paulo Sérgio. E Vinicius tinha os parceiros dele. Eu respeitei essa posição, fiquei na minha. Pode ter sido uma bobagem, pensando bem.”

O tempo passou e só agora, quando jornalistas da Revista Época entregaram a Carlos Lyra letras encontradas nos arquivos de Vinicius de Moraes, na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, a parceria esquecida pelo tempo vai se tornar real.

A CANÇÃO

“Uma saudade que alegra a gente

Uma tristeza cheia de paz

Provavelmente eu ando amando demais

Acendo o filtro do cigarro e meu carro passa nos sinais

Provavelmente eu ando amando demais

Também você, além de linda, ainda tem aquele algo mais

Mas assim não vale, assim não se faz. Não durmo mais

Que bom que é, suspeito até de quem bem me faz

Sou tão feliz, eu ando amando demais”

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