Vinicius de Moraes ganha tributo dos 90 anos

A última canção gravada por Vinicius de Moraes foi uma valsa, singela valsinha, melodia de Toquinho, voz e violão, um corinho feminino: Gilda. Canção de muito amor para a companheira dos anos finais, dos minutos finais, Gilda Mattoso, que estava ao seu lado naquele 9 de julho de 1980, em casa, na Gávea, zona sul do Rio, o dia em que o poeta morreu. Fonograma raro, Gilda é uma das pérolas do tributo Vinicius 90 Anos, recém-lançado pela Som Livre, com produção da mesma Gilda Mattoso. As 25 faixas do CD duplo compilam sucessos e números menos conhecidos, muitos na voz do compositor, outros por Maria Bethânia, Agostinho dos Santos, Maísa, Alaíde Costa, Geraldo Vandré, Luciana de Moraes, além de depoimentos de admiradores célebres: Carlos Drummond de Andrade, Chico Buarque, Calazans Netto, Tom Jobim. No encarte, em caprichoso libreto, todas as letras, belas fotos, várias ao lado de parceiros e amigos como Chico e Tom, caricaturas, os depoimentos gravados. Por escrito, textos de Otto Lara Resende, Rubem Braga e Sérgio Cabral, reproduzidos de uma homenagem anterior, publicada em 1990, além de uma carta de Gilda. Um senão: faltam as datas das gravações originais, cedidas pelas gravadoras Universal, BMG e Phono Musical Argentina. O preço sugerido pela Som Livre é de R$ 35, mas uma busca na internet mostra que é possível encontrar o tributo a bons R$ 27,60 e a superfaturados R$ 40,00. No post-scriptum da carta póstuma de Gilda Mattoso, lembra ela quando, em 1969, Vinicius veio a São Paulo para ler, para os sindicalistas do ABC, a convite do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, o então quase desconhecido Luiz Inácio Lula da Silva, o poema O Operário em Construção. O que faz valer lembrar que Vinicius foi desligado do Itamaraty, em 1964, menos por atitudes políticas e mais pelo relacionamento com gente de esquerda, sob a desculpa oficial de comportamento incoerente com a formalidade diplomática. O bom de Vinicius 90 Anos é que privilegia o poeta como intérprete, ele que teve e tem a obra cantada pelos maiores intérpretes de cinco décadas de música brasileira. O menos bom do disco é que a maior parte das gravações foi feita na fase em que sua carreira deixava a desejar - quando, com Toquinho, diluiu a obra já consagrada e produziu bobagens como Tarde em Itapoã ou Cotidiano n.º 2, selecionadas para o repertório. No cômputo geral, um digno e gostoso tributo. Que faz lembrar: no ano de seu 90.º aniversário, o poeta recebeu menos homenagens do que mereceria. Ainda dará tempo?

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