Arquivo Estadão
Arquivo Estadão

Vinicius de Moraes e Toquinho: parceria vitoriosa

Na data que se completa 40 anos da morte do poeta, relembre o encontro dele com o violonista

Renato Vieira, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2020 | 10h00

Vinicius de Moraes dizia que a vida é a arte do encontro. E da parceria com um jovem Toquinho nasceram mais de cem canções que permanecem na memória afetiva de muitas pessoas 40 anos após a morte do poeta – completados nesta quinta-feira, 9. A dupla percorreu o mundo inteiro fazendo shows e criou projetos que marcaram a música brasileira.

Eles se aproximaram em 1970, após Toquinho participar de um álbum produzido na Itália em homenagem ao poeta. Ele gostou do que ouviu e convidou o violonista para acompanhá-lo em uma temporada de apresentações na Argentina ao lado da cantora Maria Creuza. O que era um contato apenas profissional foi se transformando em uma amizade que deu origem a Como Dizia o Poeta, a primeira parceria da dupla.

Depois de shows na Bahia, Toquinho foi ousado e pegou escondido um poema que Vinicius pretendia entregar a Dorival Caymmi para musicar, Tarde em Itapoã.

Vinicius ouviu a canção pronta e disse a Toquinho que não ia mais mostrar o poema para Caymmi. Uma gravação de voz e violão foi veiculada em uma rádio de São Paulo e Tarde em Itapoã se espalhou por todo o Brasil. A partir daí, os dois passaram a compor com frequência e em 1971 foram lançados dois discos da dupla, Toquinho e Vinicius e Como Dizia o Poeta...Música Nova, com a cantora Marília Medalha – este incluindo o clássico A Tonga da Mironga do Kabuletê

A parceria já estava consolidada em 1972, quando Toquinho e Vinicius gravaram o disco São Demais os Perigos Desta Vida, com espaço para os sambas Para Viver Um Grande Amor e Regra Três. Reverente ao candomblé, o poeta escreveu as letras de Tatamirô e Canto de Oxalufã

Unindo prestígio e popularidade, a dupla recebeu convites para fazer trilhas sonoras de novelas. A primeira foi Nossa Filha Gabriela (1972), de Ivani Ribeiro, exibida pela extinta TV Tupi. Sei Lá (A Vida Tem Sempre Razão) foi uma das 12 faixas que embalou a trama. 

No ano seguinte, a direção da TV Globo propôs a Toquinho e Vinicius que fizessem a trilha de O Bem-Amado, de Dias Gomes. O ator Paulo Gracindo interpretava Odorico Paraguaçu, prefeito da fictícia cidade de Sucupira, cuja plataforma de governo é a construção de um cemitério. Duas músicas, O Bem-Amado e Paiol de Pólvora, têm letras que retratam de maneira cifrada a situação do Brasil naquele momento, época do regime militar. Meu Pai Oxalá, tema de Zelão das Asas (Milton Gonçalves), também alcançou repercussão.

Para Fogo Sobre Terra (1974), de Janete Clair, a dupla fez seis músicas. Uma delas é Calmaria e Vendaval, gravada por Djavan em início de carreira.

Quando estavam na estrada, os parceiros gostavam de ter os amigos para perto. Ao lado de Clara Nunes, Toquinho e Vinicius fizeram o show O Poeta, a Moça e o Violão (1973), com um roteiro que também era formado por canções do poeta escritas com Tom Jobim, Baden Powell e Carlos Lyra. Em 1977, a dupla se uniu a Jobim e Miúcha em um espetáculo que ficou cerca de oito meses em cartaz no Canecão, a principal casa do Rio.

Após um disco que comemorava os dez anos da dupla, eles foram contratados pela gravadora alemã Ariola, desembarcando no Brasil. Um Pouco de Ilusão (1980) foi lançado às vésperas da morte de Vinicius. No estúdio, o poeta estava debilitado e teve dificuldade de colocar voz na música Gilda, dedicada a Gilda Mattoso, sua última esposa. O disco ainda tem Samba Pra Endrigo, dedicada ao cantor italiano Sergio Endrigo, Caro Raul, uma homenagem ao amigo Raul Leite e Por Que Será?, com Carlinhos Vergueiro acoplado à parceria. 

Ainda em 1980, chegou ao mercado o primeiro volume do disco Arca de Noé, projeto da dupla destinado a crianças com a participação de Alceu Valença, Elis Regina, Fábio Jr, entre outros. O repertório também deu origem a um especial da TV Globo. Aquarela, o grande sucesso da carreira solo de Toquinho, saiu três anos depois e conta com Vinicius nos créditos. Porém, o poeta não escreveu uma linha da música. É que a melodia da primeira parte de Uma Rosa em Minha Mão, feita por ambos, foi utilizada na canção e o violonista fez questão de manter o nome do poeta.

Entre os intérpretes que gravaram canções da dupla estão Chico Buarque, Elza Soares, Daniela Mercury, Maria Bethânia e o grupo Quarteto em Cy.

Tudo o que sabemos sobre:
Vinicius de MoraesToquinhomúsica

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.