Arquivo/AE
Arquivo/AE

Vinícius de Moraes é lembrado em dois shows no Memorial da América Latina

Poeta completaria 100 anos em 2013; homenagens já começaram

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2012 | 07h00

Nenhum ano havia sido pior do que 1973. Ano mais sem critério, impetuoso ao levar para o cemitério três Pablos de uma só vez: Picasso, Casals e Neruda. Vinícius de Moraes não se conformava, e assim escreveu sobre a temporada das grandes perdas. “Três Pablões, não três pablinhos. No tempo como no espaço, Pablos de muitos caminhos.” Era gente boa demais indo embora. Seu poema terminava com um palavrão de fazer tremer a audiência, um “vá pra puta que o pariu!” digno de desobstruir as vias respiratórias. A censura ouviu sua elegia aos Pablos de esquerda e resolveu encrespar, usando o argumento de que Vinícius estava proibido de aparecer em cena por causa do palavrão que dizia no final.

As meninas do Quarteto em Cy, suas “baianinhas” batizadas por ele e por Carlos Lyra, resolveram então fazer o primeiro show do Circuito Universitário, em Brasília, todo para ele. Escondido na coxia, Vinícius ouvia emocionado Por Causa de Você. E a plateia sentia, pelas lágrimas das baianinhas do palco, que o poeta estava presente.

As lágrimas não param de sair de Cyva, uma das integrantes do Quarteto. Ao falar com o repórter por telefone e lembrar de Vinícius, tem de parar de contar suas histórias por duas vezes até se recompor das memórias que a levam a um choro dolorido. Um ano para corações fortes está por vir. No próximo dia 19, Vinícius completaria 99 anos. 2013 será seu centenário. E o ponto de partida das comemorações será com uma apresentação no Memorial da América Latina sexta e sábado próximos, às 21 h. Idealizado por Cynara, irmã de Cyva e de Cybele, que formam o quarteto com a amiga Sonya, o show terá também a cantora Wanda Sá e a filha de Vinícius com Lila Maria Esquerdo Bôscoli, Georgiana de Moraes, que vai cantar e declamar.

O show aquece as turbinas de uma série de eventos que começa a ser desenhada pela empresa Geo, sob o selo do Centenário de Vinícius, e que deve se estender por todo o ano de 2013. O que já está definido: o espetáculo Arca de Noé será reeditado nos palcos e, possivelmente, ganhará uma edição fonográfica de luxo. Uma exposição de documentos e memorabilia rodará por grandes capitais do País. E um show, com parceiros de Vinícius e nomes da nova geração. 

Leonardo Ganem, presidente da Geo, diz ainda que abrigará no guarda-chuva da empresa projetos que terão o centenário como tema, ainda que sejam desenvolvidos por terceiros. “Acredito que Vinícius tenha muita capacidade de capturar as novas gerações, sobretudo com a força dos poemas de sua fase mais tardia”, diz Ganem, lembrando do sucesso das homenagens em torno de Elis Regina, encampada este ano por seu filho, João Marcello Bôscoli.

Enquanto isso... “Vamos fazer uma produção nos moldes que fazíamos desde o tempo do Beco das Garrafas”, diz Wanda Sá sobre a apresentação do Memorial, referindo-se aos pocket shows imortalizados pela dupla Miele e Bôscoli no Rio de Janeiro no inícios dos anos 60, em que canções eram alternadas com uma elegante contação de boas histórias. 

Quem passava dez minutos ao lado de Vinícius podia ter certeza de que algo de estranho, ou saboroso, estava prestes a acontecer. Quando um problema em um de seus braços o fez procurar um médico, Vinícius se preocupou com a recomendação: fisioterapia. Fez então uma inteligente contraproposta de pegar qualquer doutor desavisado. Em vez de exercícios, teria aulas de violão. O médico aceitou, e Vinícius, que poderia chamar Toquinho, Carlos Lyra, Roberto Menescal ou qualquer um dos grandes violonistas que o cercavam, convocou a loira Wanda Sá. 

“Eu ia então todos os dias à casa dele, mas nem fazíamos aulas coisa nenhuma. Ficávamos conversando o tempo todo.” Depois de lembrar passagens assim, Wanda vai cantar Eu Não Existo Sem Você, Coisa Mais Linda, Eu e Você com Saudade Fez um Samba e O Que Tinha de Ser. Wanda terá seus 50 anos de carreira celebrados também em 2013, quando lançará um DVD com direção de Miele, Dory Caymmi e participação da jazzista Jane Monheit.

Georgiana vai cantar com o Quarteto em Cy e também lembrar de suas histórias com o pai, por mais que fosse gratificante e difícil a condição de ser filha de Vinícius. “Isso me custou alguns anos de análise. Você quer que o seu pai seja seu quando você tem 5 anos, mas ele era do mundo.”

Quando fala do pai, do que é que fica em alguém que cresce com o sobrenome Moraes, Georgiana não cita nenhum poema, mas fala de uma essência que tenta absorver todos os dias. “Ele tinha de estar bem com ele mesmo sempre. Tinha uma impressionante fidelidade a si próprio. Nem sempre eu consigo ser assim.”

COMO DIZIA O POETA. Sexta (19) e sábado (20), às 21h. Memorial da América Latina. Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, Barra Funda, tel.: (11) 3823-4600. Preço: R$ 30

Mais conteúdo sobre:
Vinícius de Moraes poesia música show

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.