Vigário Geral faz "rebelião" musical em SP

O morro de Vigário Geral, na Zona Norte do Rio de Janeiro, tem acordado com um estrondo nos últimos tempos. Os ruídos saem de um terreno cercado por um muro pintado com desenhos de grafite, onde um punhado de jovens passa seus fins de semana. Desta vez, não são metralhadoras ou fuzis AR 15 disparando contra policiais. O som mais alto que se ouve em Vigário, há cinco anos, é de música.Os garotos que cresceram com as lembranças da chacina de 1993 na memória querem virar o jogo. Deixaram o crime e passaram a empunhar instrumentos musicais. O resultado da "rebelião" pode-se ver hoje, em um único show que fazem no Sesc Pompéia, às 21 h.O conjunto Afro Reggae, com 17 integrantes, é uma das crias saídas de um grupo cultural organizado pelos próprios moradores. Eles atendem cerca de 400 jovens com idades entre 14 e 20 anos. Em quase um ano desde que lançaram Nova Cara, seu primeiro disco, tocaram no Rock in Rio 3, dividiram o palco com os ingleses do Asian Dub Fundation e cativaram os críticos internacionais.Não pense que todo este reconhecimento se trata de compaixão e piedade aos pobres meninos do morro carioca. Quando sobem ao palco, eles estão bem ensaiados e sabem o que fazer. Os garotos colocam alma nas interpretações, dançam com passes vigorosos e sincronizados e tocam para envolver o público. Foi assim no primeiro show que fizeram, em fevereiro, na sede da Universal, Barra da Tijuca."Trazemos uma mescla de dança, teatro, circo. O que vem depois é conseqüência", resume Ando, um dos vocalistas. Tais conseqüências têm sido das melhores. Há três meses, os integrantes do cultuado Asian Dub Fundation chegaram ao Rio de Janeiro para fazerem um workshop em Vigário. Ao verem os rapazes do Afro tocar, mudaram os planos. "Não temos nada a ensinar a eles. Vamos fazer uma jam", decidiram os gringos.Mark Binelli, crítico da revista americana Rolling Stone, escreveu ao assisti-los no Rock in Rio. "É difícil acreditar que o Afro Reggae tocou em um palco secundário enquanto bandas como Silverchair tocaram no principal." A luta armada, com guitarras e tambores, continua para Ando. "A fila é muito grande. Para uma criança que conseguimos tirar do tráfico, entram cinco novas. É duro, cara. Ver meninos de 15 anos com um fuzil 762 nas mãos é de cortar o coração. Mas não vamos desanimar."Afro Reggae. Hoje, às 21 h. Sesc Pompéia (Rua Clélia, 93. Tel.: 3871-7700) Ingresso: R$ 10.

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