Vida e obra em pauta, 120 anos depois da morte de Tchaikovski

Compositor foi responsável por criar obras fundamentais do repertório, celebradas pelo público

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2013 | 08h20

Em agosto deste ano, o escritor Yuri Arabov anunciou a conclusão do roteiro para uma cinebiografia de Tchaikovski, a ser filmada com patrocínio do governo da Rússia. E, em meio ao debate no país sobre direitos dos homossexuais, decorrente da aprovação de uma lei que proíbe "propaganda de relações sexuais não tradicionais", jornalistas perguntaram a ele como havia tratado a questão da homossexualidade do compositor. "Mas ele não foi um homossexual. E me oponho à discussão desse tema, particularmente no mundo das artes", respondeu Arabov ao jornal Izvestia.

A resposta desmente as principais biografias do compositor - e muitas das suas cartas e documentos, em que a questão é discutida, mesmo que em geral de modo velado. Ainda assim, o ministro da Cultura russo saiu em defesa de Arabov, dizendo que "não há provas de que Tchaikovski fosse homossexual". "Ele apenas teve dificuldade de encontrar uma mulher ideal com quem se casar." Por outro lado, o jornal The Guardian relembrou uma declaração do presidente Vladimir Putin sobre o compositor. "Dizem que Tchaikovski era homossexual. Verdade seja dita, não o amamos por isso, mas ele foi um grande compositor e todos nós amamos sua música. E daí?"

 

É simbólico que, quando se completam 120 anos de sua morte, encontremos Tchaikovski novamente em meio a uma discussão sobre sua biografia. De um lado, episódios como a separação e a perda da mãe, os amores proibidos, o casamento fracassado; as crises nervosas; a homossexualidade; a suspeita de suicídio; de outro, a força trágica de obras como suas últimas três sinfonias, que tratam de temas como amor, destino e morte - nessa dualidade, está a certeza de que poucos autores tiveram, ao longo do tempo, vida a obra ligadas de modo tão indissociável quanto Tchaikovski.

Nascido nasceu em 1804, morreu em 1893 -  foi compositor fundamental na segunda metade do século 19. Praticou diferentes gêneros - e, em todos eles, deixou obras que até hoje são referência. Para o balé, compôs clássicos como O Quebra-Nozes ou O Lago dos Cisnes; suas últimas três sinfonias são parte indispensável do repertório de qualquer orquestra; suas óperas, em especial Eugene Onegin, baseada em Pushkin, são produzidas frequentemente pelos principais teatros do mundo; seus concertos para piano, violino e violoncelo fazem parte do repertório básico de qualquer solista.

Em comum, todas essas obras têm o fato de estar entre as favoritas do público - ainda que a crítica nem sempre tenha estado ao lado do compositor, em especial após a sua morte. A primeira metade do século 20 acostumou-se a ver em suas criações um ranço romântico tardio - o que é um jeito mais elaborado de dizer que suas peças resvalavam na pieguice, apostando em soluções fáceis e melodramáticas.

A isso, somava-se a percepção de que, apesar de grande melodista, Tchaikovski tinha uma dificuldade grande em desenvolver suas ideias musicais. Em outras palavras, era capaz de criar temas e melodias de rara beleza, inesquecíveis - mas não sabia bem o que fazer com elas ao longo de uma peça de proporções maiores, levando a obras repetitivas e redundantes. Talvez por isso, alguns autores - como Lauro Machado Coelho, em sua História da Ópera Russa - defendam que a ópera, onde a estrutura de números breves independentes dispensaria a necessidade de maiores desenvolvimentos, seria o gênero sob medida para as especificidades de seu talento.

Seja como for, a história acabaria por rever o lugar reservado a Tchaikovski. Já nos anos 1950, por exemplo, Igor Stravinsky chamaria atenção para a beleza das melodias do compositor e, mais do que isso, para seu talento na orquestração, que é a arte de distribuir a música pelos instrumentos da orquestra. Não seria o único, e nas últimas décadas o que já foi tachado de pieguice hoje pode ser interpretado como a capacidade de se comunicar de maneira direta com o ouvinte, recriando um universo musical que pode ser trágico - mas sem abrir mão da beleza e do encantamento.

Veja alguns vídeos:

Sinfonia nº 6 - Patética

Cena final da ópera Eugene Onegin

Concerto para Piano e Orquestra nº 1

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