Venezuela se torna viveiro de maestros do nível de Gustavo Dudamel

A incrível indústria venezuelana apresenta agora Diego Matheuz, 26 anos

João Marcos Coelho - O Estado de S. Paulo,

25 Junho 2011 | 13h01

O Sistema criado pelo maestro Abreu 35 anos atrás não pretendia isso, mas arrisca-se a se transformar no mais fértil viveiro de novíssimos maestros do planeta, a curto prazo. Nem bem o mundo acostuma-se ao reinado pop de Gustavo Dudamel, hoje com 30 anos, e outro nome já se impõe, a ponto de ser considerado, em reportagem da revista inglesa Gramophone em sua edição deste mês, como um dos dez talentos jovens que dominarão já a cena da batuta no planeta. Não foi, porém, nenhum crítico ou editor o responsável pelo prognóstico, mas Claudio Abbado, o notável maestro italiano que abraçou o Sistema há cerca de duas décadas e já apadrinhara Dudamel anos atrás. Seu depoimento sobre Diego Matheuz, de 26 anos, que ainda não tem nenhuma gravação mas já regeu orquestras importantes como a Mozart de Bolonha, é tocante: "É um dos mais notáveis talentos da nova geração, por isso o chamei para ser regente convidado principal da Orquestra Mozart."

 

O novo ungido nasceu em Barquisimeto, cidade de 1,3 milhão de habitantes a 335 km de Caracas. A mesma onde veio ao mundo o hoje astro de primeira grandeza Dudamel, que nas três noites de concerto em São Paulo teve paciência para mais de uma hora após as apresentações dando autógrafos e posando com os fãs para fotos.

 

Matheuz estudou violino, como Dudamel, com o mesmo professor. Ambos tocaram juntos na orquestra local do Sistema. "Aos 13, eu já era regente da orquestra da minha cidade", disse Matheuz ao Estado, em conversa na Sala São Paulo na última terça-feira. "Estudei regência com o maestro Abreu, como Gustavo", diz o jovem regente que passou desapercebido no burburinho dos 260 venezuelanos que tomaram de assalto a Sala São Paulo por três dias.

 

Sem a menor arrogância, Matheuz não se preocupa em esconder o desinteresse e a falta de conhecimento da produção contemporânea de hoje. Música espectral, eletroacústica... "O que é isso? Nós, no Sistema, chegamos no máximo a Stravinski." Mas conhecem Bela Bartók, não? "Sim, sim. O maestro Abreu tem uma preferência muito forte pelos compositores russos, de Tchaikovski a Shostakovich, passando por Stravinski. Este repertório conhecemos bem." E os jovens compositores venezuelanos? Matheuz exemplifica com o programa de terça-feira. Mas nele só aparece Evencio Castellanos, adepto da estética nacionalista, morto em 1984. Dos vivos, ele não cita nenhum, mas lembra do Villa. "Ah, gostamos muito dele. Fazemos anualmente um Festival Villa-Lobos em Caracas, e o maestro Isaac Karabtchevsky vai regularmente reger suas obras."

 

A alegria de fazer música. Apesar de já ter agendados concertos na Europa - incluindo um com a Simon Bolívar na Itália, onde também regerá a Orquestra Mozart e a Orquestra da Academia Santa Cecília, entre outras -, Matheuz continua vivendo na Venezuela e estudando violino. Qualquer outro ungido por Abbado já teria se mudado para a Europa. Matheuz não. Ainda toca como spalla em orquestras venezuelanas.

 

Será por esta humildade que os músicos forjados pelo Sistema provocam tamanho frisson nos EUA e Europa? Matheuz, com um meio-sorriso, diz que não sabe se é isso, mas é provável que o caráter social do projeto os diferencie em relação aos milhares de asiáticos - entre japoneses, chineses e coreanos - que hoje invadem os concursos internacionais (são mais de 50% dos candidatos) e as orquestras norte-americanas (beiram 40%).

 

Boa parte deste processo de sedução dos jovens regentes venezuelanos junto ao chamado Primeiro Mundo deve-se a dois fatos que chamaram a atenção do público presente nos três concertos da Simon Bolívar na Sala São Paulo. Primeiro, sempre que retornava para agradecer aos insistentes aplausos depois de uma performance, Gustavo Dudamel jamais subia ao pódio. Ficava no mesmo nível dos músicos; no domingo e na terça, ele e seus 134 comandados com idade média de 23 anos viraram-se em ordem unida e agradeceram à plateia postada no coro. O segundo fato foi o segundo extra da terça, quando os músicos chegaram a trocar de instrumentos entre si, numa brincadeira quase infantil, tamanha a alegria contagiante. Isto é, eles fazem música como quem brinca, mesmo quando enfrentam uma dificílima Sétima Sinfonia de Mahler.

 

Estas podem ser as chaves para explicar os motivos que levaram El Sistema a conquistar o mundo. Nas mais de 250 orquestras infantis e juvenis espalhadas pela Venezuela, os músicos intercambiam os lugares sem cerimônia. Lá, nascem e crescem tendo como meta maior tocar numa orquestra, ao contrário da formação convencional clássica, sempre visando a formação de solistas (quando adulto, o músico só passa a tocar numa orquestra por sobrevivência, e raramente por gosto).

 

Há mais uma razão - desta vez mercadológica - para o surpreendente êxito desta fábrica de celebridades da batuta. Ela chegou na hora certa para revitalizar e rejuvenescer uma vida musical envelhecida, onde plateia e palco são preferencialmente preenchidos por cabelos brancos. Existe algo mais pop que os cabelos encaracolados de Gustavo Dudamel balançando enquanto ele vibra num tutti do Pássaro de Fogo? Diego Matheuz, com seu jeitão de "latin lover", apesar da baixa estatura, também preenche o quesito pop que a engrenagem carcomida da vida musical clássica internacional precisa para pensar em um futuro melhor.

 

A música precisa vampirescamente de sangue novo como o desta dupla de pequenos notáveis. Por isso a indústria laçou-os como quem segura firme duas boias de salvação num mar infestado de tubarões. Quem ganha com isso? O público, apesar da engrenagem meio perversa. E a América Latina, que pela primeira vez em muitas décadas ocupa espaço e horário nobres no noticiário cultural internacional por causa da música clássica.

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