Vendas online dão novo fôlego às grandes gravadoras

As gravadoras multinacionais descobriram o mundo virtual. Depois de anos tentando evitar que se vendesse e comprasse música pela internet, telefone e outros meios que não o disco, os fatos falaram mais alto e a recuperação do mercado, tímida e firme em 2005, se deu graças às vendas online. Por isso, o presidente da associação mundial do setor, John Kennedy ("nenhuma relação com o presidente americano", explicou ele) veio ao Brasil para se encontrar com representantes na América Latina e prospectar negócios. Veio também falar com o governo brasileiro, mas só do combate à pirataria. Apesar de o ministro da Cultura, Gilberto Gil, ser um dos músicos mais bem-sucedidos do mundo, não há encontro agendado com ele ou seus assessores. Mas Kennedy traz boas notícias. Se a venda de discos cai vertiginosamente há uma década, consumindo empresas e unindo outras para evitar esse destino, o mercado virtual parece reverter essa tendência. Em 2005, vendeu-se US$ 1,1 bilhão nesses sistemas (R$ 2,2 milhões), 6% do total do mercado. Não parou a queda, mas deixou o prejuízo em só 2%. "A tendência em 2006 é se estabilizar e os lucros devem chegar em 2007", prevê Kennedy. "Há países como Alemanha, Inglaterra e Japão onde a venda de música online é forte, mas o Brasil é quase inexplorado. A indústria tem obrigação de atender às demandas desse mercado." Uma das principais questões, na opinião de Kennedy, é evitar que o comprador online o faça ilegalmente, sem pagar o que a gravadora acha devido. Para ele, é uma pirataria evitável, já que a física é caso perdido. "Quem produz e compra disco pirata sabe que comete um crime", afirma. "Quem compra virtualmente pode ser educado, levado a comprar legalmente e, em geral, é isso o que acontece." Kennedy parece saber pouco sobre o mercado brasileiro, em que, cada vez mais, os músicos querem produzir e vender seus trabalhos de forma independente ou associada a pequenas empresas, geralmente nacionais. É o caso dos músicos novatos, que não encontram espaço nas multinacionais, e das grandes estrelas, como Maria Bethânia (que deixou as majors pela Biscoito Fino e voltou a ser campeã de vendas), de Djavan (que saiu da antiga Sonny para poder vender seus discos nos shows, entre outros confortos), Milton Nascimento (que saiu da Warner, mas por enquanto só lançou discos antigos, resultantes de projetos especiais, e outros artistas) e Marisa Monte, que desde 2000 usa o próprio selo para lançar seus discos e dos músicos de que gosta (geralmente sambistas da velha-guarda). Dessa constelação, só Roberto Carlos e Caetano Veloso parecem felizes com suas multinacionais, a BMG e a Universal, respectivamente. "O sucesso da música nos interessa de qualquer forma. Mas creio que os artistas vão sempre precisar da experiência das grandes gravadoras para vender sua música", avisa Kennedy. Ele também discorda do ministro Gilberto Gil, para quem é preciso rever a forma de remunerar o autor. Até aqui, pagava-se o cantor, instrumentista ou compositor pela quantidade de exemplares de discos vendidos e sua execução no rádio e outros meios de comunicação. Para Gil, ficou impossível controlar essa reprodução e é preciso buscar novos meios. Para Kennedy, trata-se de uma questão ideológica. "Politicamente, o artista pode até gostar, mas perderá dinheiro dessa forma." Depois de muito falar de negócios, Kennedy não quis opinar sobre estilos ou gêneros musicais, de onde virão os novos hits. Aí, ele prefere que os artistas falem: "Para nós, executivos, só existe uma certeza. Toda previsão que fizemos acabou revertida."

Agencia Estado,

22 de março de 2006 | 12h54

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