Velhas Guardas mostram tradição do samba

O Rio vem assistindo à retomada do samba tradicional, do chamado samba de raiz. Com início nesta segunda-feira, dia 28, os legítimos representantes dessa tradição, as Velhas Guardas das grandes escolas de samba cariocas, farão apresentações no Espaço Sérgio Porto, no Humaitá. Quem abre o projeto Rio Velha Guarda, da Prefeitura, é o Salgueiro, seguido por Portela, Império Serrano e Mangueira - uma a cada segunda-feira.Nos últimos dois anos, as Velhas Guardas, os componentes mais antigos das escolas, estão ganhando notoriedade. A primeira a gravar um CD foi a Portela, produzido por Marisa Monte. A Mangueira lançou o seu logo depois, com direito a excursão à Europa, documentário e, mais importante, indicação para o Grammy Latino deste ano. Em setembro, é o Salgueiro quem vai registrar em CD o som tradicional do morro.As grandes escolas de samba mantêm um grupo musical, com média de dez componentes, que levam a público os sambas mais antigos ou marcantes do seu repertório: é a Velha Guarda Show. Mas a Velha Guarda de uma escola é muito mais que isso. São os sambistas responsáveis por preservar a memória da agremiação. Não há uma regra geral para todas, mas normalmente, o componente deve ter mais de 55 anos e, isso é mais criterioso, pelo menos 25 anos de ligação com a escola comprovados pelos diretores. Ainda que não haja um poder administrativo, a Velha Guarda é muito próxima da presidência. No samba, há um grande respeito pela experiência e pela tradição. "Eles têm de ouvir os mais velhos. Como não vão ouvir se na Velha Guarda estão os pais e as mães dos diretores, dos mestres de bateria e até do presidente?", explica Wilson das Neves, diretor musical e responsável pela nova formação da Velha Guarda Show da Império Serrano. História - A tradição oral dificulta uma precisão sobre o nascimento das velhas guardas. Ao que contam, foram sendo formadas cerca de 30 anos depois do surgimento das escolas. Segundo o diretor do Salgueiro, Ricardo França, em 1982 houve um congresso na Universidade do Estado do Rio com a presença de todas as grande agremiações, onde foi oficialmente criada a designação "galeria da Velha Guarda" para identificar o grupo de sambistas mais velhos.A quantidade de integrantes não respeita um número fixo, e pode chegar a cem dependendo da antigüidade e do tamanho da escola. As velhas guardas comparecem aos eventos ligados ao samba carioca, visitam as quadras das "co-irmãs" em comemorações, aconselham a diretoria e fazem trabalhos sociais. "Não há uma condição para integrar a Velha Guarda, isso vai depender da atitude da pessoa, tem que manter o respeito e preservar a moral da escola", enfatiza "Seu" Armando Santos, de 85 anos, um dos fundadores da velha guarda portelense. Eles reúnem-se pelo menos uma vez por semana para discutir assuntos sobre a escola, seus shows, e claro, para tocar e cantar muito samba. "O samba é espontâneo", diz Armando. As pastoras e os pastores, como são chamados os componentes da velha guarda, são tratados por "senhor" e "dona" como forma de respeito.Sem passagem - Neste Projeto, as chamadas "quatro grandes" vão apresentar seus repertórios musicais das antigas rodas de samba dos morros. Nesta segunda, o Salgueiro, criada em 1954, traz o samba de Geraldo Babão, Aberlardo Silva, Nei Lopes além de composições de Noel Rosa, legítimo representante da Vila Isabel. Os componentes da Velha Guarda Show, criada em 90, foram ensaiados pelo famoso Mestre Louro, mestre da famosa bateria nota 10 do Salgueiro.A Portela criou seu conjunto de show em 1970 pelas mãos de Paulinho da Viola. Hoje, Monarco, Casquinha, Argemiro e outros dez integrantes mantêm a tradição. Na próxima segunda, dia 4, eles mostrarão canções como Coração em Desalinho, de Monarco e Ratinho, Foi um Rio que Passou em Minha Vida, de Paulinho da Viola, e Vou Parti, de Nelson Cavaquinho e Jair do Cavaquinho.Do Império Serrano, o mais novo grupo musical da tradição do samba carioca, vêm nomes como Tuninho Fuleiro, filho de Mestre Fuleiro, Aluízio Machado (ex-parceiro de Beto Sem Braço). Fundada no morro da Serrinha em 1947, a Império tem origem nos trabalhadores do cais do porto que se reuniam para fazer samba. Um dos integrantes do conjunto é o "Seu" Nilton Campolino, o primeiro puxador de samba da escola. Um dos idelalizadores do grupo é Wilson das Neves, que é também baterista de Chico Buarque. A apresentação da escola é no dia 11.Fechando esse passeio pelo som carioca, dia 25, a Estação Primeira de Mangueira vem apresentar músicas de expoentes da cultura popular, como Cartola e Saturnino, pai de Dona Neuma, fundadores da Mangueira em 1928, e Aluísio Dias e Carlos Cachaça, um dos precurssores da Velha Guarda em 1956. Esta é a 3ª geração da Velha Guarda Show mangueirense, criada em 1990 por Josimar Monteiro, que é também responsável pela produção do CD. No repertório, Folhas Secas, de Nelson Cavaquinho, Sei lá Mangueira, de Paulinho da Viola e Hermínio Belo de Carvalho, e Corra e Olhe o Céu, de Cartola. Monteiro está muito satisfeito com o trabalho dos sambistas, mas reclama da falta de patrocínio e de apoio às escolas de samba. "Só agora estão começando a valorizar a tradição do samba, as velhas guardas." A festa do Grammy é dia 13 de setembro em Los Angeles e eles ainda não conseguiram nenhuma passagem aérea.Rio Velha Guarda - Espaço Cultural Sérgio Porto, Rua Humaitá, 163, Tel.266-0896. Dia 28 de agosto e 04, 11 e 25 de setembro, às 20h30.

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