Velha guarda dos anos 80 ainda na estrada do rock

O mais velho do trio não tem mais, aos 44 anos, a silhueta que levava meninas e meninos à loucura quando mostrava a barriga durante os shows. O do meio, 43, perdeu um pouco do vozeirão marcante que tinha há 20 anos. E o mais novo, com 41, já não conta com a companhia dos colegas que sempre lhe garantiram boas melodias para cantar. Mas nem eles nem os fãs se importam. É assim mesmo que esses artistas sobreviventes, experientes e meio abatidos pelos percalços das mais de duas décadas de carreira voltam à cena: Morrissey (o do abdome), Ian McCulloch (o da voz) e Dave Gahan (o das boas companhias) estão de volta para desafiar aqueles que ainda acreditam que charme e talento acabam quando acaba a juventude. Vocalistas de três das mais importantes bandas inglesas dos anos 80 - The Smiths, Echo & The Bunnymen e Depeche Mode, respectivamente - os hoje quarentões estarão em breve de volta às prateleiras das lojas de CDs. McCulloch e Gahan acabaram de lançar seus discos solo, Slideling e Paper Monsters. Mas é de Morrissey - "o maior inglês vivo", segundo o jornal britânico The Guardian - que vem a grande novidade: depois de anos de negociação com diversas gravadoras - desde que a sua antiga faliu - o ex-parceiro do guitarrista Johnny Marr anunciou, no mês passado, que assinou um contrato com a Sanctuary Records. "Para as 12 pessoas no Reino Unido que estão interessadas, gostaria que soubessem que assinei com o selo Attack, da Sanctuary. E comecei a gravar o meu primeiro álbum em 40 anos", disse o músico, em seu tom irônico característico, em fax ao famoso programa de Janice Long na Radio 2, da BCC.Slideling, de McCulloch, que sai no Brasil pela Sum Records, é quase um sucessor de Flowers (2001), o último do Echo & The Bunnymen. Mas pouco se parece com o esquecido seu segundo disco solo Mysterio (92) ou com qualquer um da primeira fase do Echo. O disco é uma sucessão de melodias agradáveis e assobiáveis, com letras sempre positivas. Não é mais a música para surpreender os ouvidos que fazia o Echo -, mas música para acariciá-los. O que não deve desagradar aos fãs, a essa altura já maduros também - e mais interessados em carícias do que em surpresas. No Depeche Mode, Dave Gahan sempre ficou em segundo plano na hora de compor. É até por isso que o disco solo veio: Gahan andou reclamando que era visto pelos outros apenas como o "cantorzinho". Paper Monsters saiu das sobras de um disco já pouco inspirado do Depeche, Ultra, de 1997. Gahan bebeu na fonte errada: enquanto a nova turma do electro anda copiando avidamente os primeiros discos da banda, ele se apoiou na fase mais recente do Depeche Mode - que, por ironia, soa pelo menos vinte anos mais antiga.

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