Agência Estado
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Veja sete casos de músicos censurados pelo governo militar

De Chico e Gismonti no camburão à implicância com figurinos de Ney Matogrosso, são vários os casos de restrição

Danilo Casaletti, Especial para o Estadão

12 de fevereiro de 2022 | 05h00

O livro Mordaça - Histórias de Música e Censura em Tempos Autoritários (Editora Sonora), escrito pelos jornalistas José Pimentel e Zé McGill, traz inúmeras histórias sobre a atuação da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), sobretudo após o decreto do AI-5, em dezembro de 1968, que endureceu o regime militar. 

A lista de compositores e cantores censurados é extensa: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Jorge Mautner, João Bosco, Aldir Blanc, Ivan Lins, Martinho da Vila, Geraldo Vandré, Ney Matogrosso, Joyce Moreno, Léo Jaime, entre outros.

Além da censura política, ou seja, do que os censores consideravam que iam contra à ideologia da ditadura militar, havia também a censura moral, que vigiava comportamentos e expressões que poderiam ferir, na opinião deles, a moral e os bons costumes da família brasileira.

O Estadão destaca algumas das histórias presentes no livro:

Caetano e Gil na prisão 

A história do exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil, depois de eles serem presos pela ditadura militar, no final do ano de 1968, já é bastante conhecida.

O que o livro Mordaça destaca é o fato de que, antes da prisão, Caetano não tivera nenhuma música censurada. Uma das hipóteses levantadas pelos autores é a de que o Tropicalismo não tinha prestígio entre a esquerda brasileira, o que leva os militares a não associar os versos do compositor a um perigo direto para o regime.

A prisão dos artistas só aconteceu porque eles foram vítimas do que hoje se conhece por fake news:  a de que eles teriam desrespeito a bandeira brasileira e o Hino Nacional em um show ao lado da banda Os Mutantes.

Todos no camburão

Em 1971, um grupo de compositores, entre eles, Chico Buarque, Marcos Valle e Egberto Gismonti, decidiu lançar um manifesto e se retirar do VI Festival Internacional da Canção. Cansados da censura, eles enfrentaram o governo Médici, um dos mais agressivos da ditadura militar brasileira.  Os artistas foram levados ao DOPS, no centro do Rio de Janeiro, onde ficaram detidos por quatro horas.

Questão de ordem 

Em 1976, o jornalista e compositor Nelson Motta escreveu a letra da canção Perigosa, que se tornou um grande sucesso do grupo As Frenéticas. De clara conotação sexual, os versos “eu vou fazer você ficar louco, muito louco, dentro de mim” caíram nas garras dos censores. 

Para resolver o problema, Motta jogou o verso “dentro de mim” para o começo da canção – isso, no papel. Liberada, a música foi um sucesso e todos entenderam a intenção do autor.

O Almirante negro 

Em 1974, os parceiros João Bosco e Aldir Blanc compuseram O Mestre Sala dos Mares, uma homenagem ao militar João Cândido, o líder da Revolta da Chibata, em 1910. O título original da canção, Almirante Negro, foi, de cara, vetado pela censura. “Almirante” e “negro” eram palavras que não agravam aos censores. 

Um dos versos, “rubras cascatas, jorravam pelas costas do negro pelas pontas da chibata”, foi proibido. A versão lançada por Elis Regina, em 1974, trouxe, então, “rubras cascatas, jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas”. Em 1981, em uma apresentação no México, Elis cantou a versão censurada.

Povo valente

Carlos Lyra, compositor associado à bossa nova, mas com importante atuação no Centro de Cultura Popular (CPC), teve problemas com a letra do samba O Morro (Feio Não é Bonito). A implicância foi por conta do verso “chora, mas chora rindo porque é valente e nunca se deixar quebrar”. A alegação do censor era de que a letra peitava o regime.

O Ney está (quase) nu (tem foto)

O cantor Ney Matogrosso sempre quebrou padrões por nunca se importar para a opinião pública. Desde a época em que era vocalista do grupo Secos & Molhados, abria espaço para se expressar artisticamente de maneira livre em cima do palco, o que implicava, muitas vezes, em figurinos ousados e danças sensuais.

Não escapou da censura. Ou melhor, da esposa de um general que se ofendeu ao vê-lo de dançando de torso nu. Foi intimido pelos militares a maneirar no rebolado.

Grávida, não

Em 1981, a cantora e compositora Joyce Moreno teve a canção Eternamente Grávida, que tinha versos como “é bom viver eternamente grávida” e “parir para mim é um prazer”, censurada. Para os censores, mesmo depois do fim do AI-5, grávida era uma palavra “imoral”.

 

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