Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Varanda é camarote: conheça as 'lives' de condomínio

Em tempos de isolamento, músicos fazem shows para animar a quarentena em prédios de São Paulo

Danilo Casaletti, Especial para o Estado

22 de junho de 2020 | 05h00

A noite de 6 de junho foi diferente no condomínio Alameda Morumbi, na zona sul de São Paulo. Em um palco improvisado na área das piscinas, duas bandas covers, a Beatles 4Ever e Creendence 4Ever, se apresentaram para cerca de 1.600 moradores – todos dentro de seus apartamentos, como manda o protocolo do isolamento social –, e com transmissão pelas redes sociais. As lives em prédios (na verdade, shows) vêm conquistando a simpatia de condôminos que, em tempos de coronavírus, passam o fim de semana em casa.

“Você se envolve e acaba esquecendo o que está acontecendo no mundo. É um momento de alívio”, diz a aposentada Neide Gottardi, uma das moradoras do Alameda Morumbi – ela não revela a idade, mas conta que faz parte do grupo de risco e só sai de casa para o essencial. 

A live foi um pedido dos moradores ao síndico Paulo Sérgio Werneck, há cinco anos no cargo. O prédio já fazia uma cantoria organizada pelos moradores nos fins de semana, mas o show foi mais grandioso. Além das bandas, uma queima de fogos deu o clima de festa. “Todos gostaram. Tivemos reclamações pontuais, mas nada fora do normal”, conta Werneck, que fez uma enquete na qual 87% dos moradores se mostraram favoráveis à iniciativa. “Eles já me pediram para pensar em uma festa de réveillon.”

Para realizar a apresentação, Werneck procurou por uma empresa. Encontrou a Live Aki, que desde o início de maio tem atuado em eventos desse tipo. Formada por duas empresas que já trabalhavam com entretenimento, a Taurus Som e Imagem e a Oitava Produções, a nova produtora firma parcerias para bancar os eventos e não cobra nada dos condomínios – a contrapartida é que os moradores doem alimentos para o projeto Cidade Unida, que os encaminha para instituições assistenciais e ONGs. No show do Alameda Morumbi, por exemplo, foi arrecada meia tonelada de mantimentos.

Preço de custo

Nesse modelo, a LiveAki divide o custo das apresentações em cotas de R$ 300 que oferece a prestadores de serviço do condomínio e comércios da redondeza, que têm suas marcas exibidas nas lives transmitidas nas redes sociais. Com o dinheiro, paga as bandas e técnicos. Nenhum valor fica para a empresa. “Às vezes, ponho até do meu bolso. Não tenho interesse financeiro no projeto”, afirma Fabio Canova, da LiveAki. “Estava vendo músicos e técnicos em dificuldade. Doei cesta básica, paguei conta de água. Precisamos gerar renda para o setor”, diz Canova, explicando um dos propósitos da iniciativa que já deu trabalho a 100 profissionais.

No sábado 13 de junho, a LiveAki organizou o show no condomínio Port de France, no bairro de Santana, na zona norte da capital. Lá, quem se apresentou foi a ABBA Majestät e a banda Namoral (com músicas do Jota Quest). A apresentação arrecadou mais de 300 quilos de alimentos – os prédios vizinhos também se envolveram na ação – e gerou trabalho para mais de 20 profissionais, entre músicos, produtores e técnicos.

Quem também organiza shows em prédios é o educador físico Fernando Escarelli. Ele é dono de uma assessoria esportiva que presta serviços para 31 condomínios em São Paulo e cidades vizinhas, como Guarulhos. Entre seus clientes, 12 já toparam fazer algum tipo de apresentação – que ele oferece sem custos, como forma de fidelização. “Virou uma febre, muitos começaram a pedir ajuda para organizar e eu resolvi oferecer como um mimo”, diz. 

Segundo Escarelli, cada apresentação pode custar para ele de R$ 700 a R$ 1.500, dependendo da estrutura e do artista. Ter opções é fundamental – ele tem em seu cardápio música eletrônica, sertaneja, MPB e até clássica. “Em um prédio menor, com moradores mais idosos, eu levei um violinista que tocou uma hora. Todo mundo ficou satisfeito.”

No condomínio Lumina, no bairro do Belém, na zona leste da capital, com três torres, a escolha foi por uma grande balada. Escarelli colocou um DJ e um animador para se apresentarem em cima da portaria do prédio. O evento durou cinco horas e contou com show de luzes, não só do organizador, mas também dos moradores, que improvisaram em suas varandas.

 

Independentes

Para além do formato de empresas que organizam os shows em condomínios, outras duas modalidades estão em vigor. Uma delas é a que o músico ou a banda se apresenta de graça e divulga sua conta bancária para os moradores depositarem uma contribuição voluntária. Músicos ouvidos pelo Estadão dizem que as doações são bem-vindas, mas ficam longe de alcançar o valor do cachê que costumam receber quando tocam em bares, casas noturnas ou eventos. Na outra, o músico negocia um cachê direto com o prédio – geralmente, 50% a menos do que costumavam receber antes da pandemia.

A banda Queen Tribute Brazil, que celebra o repertório do grupo britânico liderado por Freddie Mercury, teve 30 shows cancelados desde março, e encontrou nos condomínios um jeito de continuar na ativa. O baterista Reinaldo Kramer, que fundou o grupo em 1991, diz que os integrantes vivem só da música. “Com os shows, conseguimos garantir uma renda até que tudo se normalize.”

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Por sua vez, o músico e cantor Igor Godoi, vocalista da banda Sioux 66, já fez três lives em prédios. Em duas recebeu cachê; na outra, divulgou sua conta bancária para doações voluntárias. “Estamos nos moldando aos novos tempos. Um lado importante é que divulgamos nosso trabalho com as hashtags e localização nas redes sociais”, diz ele, em dúvida se o mercado voltará ao normal tão cedo.

Já o músico Renan Pirras arrumou um jeito inusitado para se apresentar para os moradores de prédios. Morador do bairro de Santana, na zona norte, ele canta e toca violão na varanda de sua casa, que é cercada de prédios. A plateia gostou, aplaudiu e piscou as luzes – o que o levou a entender que estava agradando. Ao todo, ele já fez cinco apresentações, com um repertório que inclui Tim Maia e Djavan. Pirras transite seus shows em sua conta do Instagram  e pede doações para uma ONG do bairro. “Até agora, não ganhei dinheiro, mas as pessoas dizem que gostam desse formato. E eu fico feliz por não me contradizer, pois acredito que cada um deve ficar em sua casa”, diz.

Moderação

De acordo com Ricardo Karpat, diretor da Gábor RH, que treina e assessora síndicos profissionais, os condomínios precisam ser cientes de que o direito ao sossego, garantido no Código Civil e nas convenções dos prédios, precisa ser respeitado. “A pandemia não abre brecha para desrespeitar leis ou o regulamento dos prédios. O descumprimento pode resultar em processos ou multa”, alerta Karpat, que afirma que a reclamação pode vir não só de moradores, mas de vizinhos do prédio que se sentirem incomodados.

O conselho de Karpat é para que os síndicos façam algum tipo de consulta para saber se a maioria concorda com o evento. Ele sugere que as apresentações sejam feitas aos fins de semana, antes das 19h, e tomando cuidado com o volume do som – em zona residenciais, o limite é 50 decibéis. “Dessa forma, mesmo quem não for a favor não se sentirá tão incomodado.”

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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