Nilton Fukuda / Estadão
Nilton Fukuda / Estadão

Vanusa, depois de 20 anos, lança disco produzido por Zeca Baleiro

Álbum que ajudou cantora a sair de uma dramática fase de depressão ganha força nas próprias fragilidades da artista

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2015 | 16h00

Alguns discos são apenas discos, outros são vitórias. A história por trás do novo álbum de Vanusa, que traz seu nome de batismo como título, a aproxima da segunda categoria por três elementos que permitem transcender à condição de apenas disco antes mesmo que ele comece a girar: a dramática superação pessoal de uma cantora, a crença altruísta e de potencial artístico de um produtor e um acerto de contas com as trapaças do tempo.

Caída em desgraça desde as imagens em que aparece cantando um vacilante Hino Nacional Brasileiro em 2009, na Assembleia Legislativa de São Paulo, Vanusa desceu ao porão das almas. O maior bullying já sofrido por um artista brasileiro saiu dos milhares de views na internet para ganhar as ruas e as sátiras dos programas de TV. Vanusa mergulhou em uma depressão profunda de só sair de casa se fosse escondida, abaixada no banco de passageiros do carro. Afastou-se dos palcos e dos amigos e contraiu uma Síndrome do Pânico que chegou com todo o requinte de crueldade.

A tempestade seguiu mesmo depois de Vanusa dizer sim à internação. Isolou-se em uma clínica de reabilitação e viu espetáculos dantescos, com adolescentes sofrendo ataques de abstinência do crack e dependências alcoólicas implacáveis. Aos 68 anos, depois de fazer Elis Regina ouvir as únicas vaias de sua vida por ter entrado em cena depois de uma de suas apresentações explosivas e de deixar discos antológicos nos anos 70, Vanusa conhecia as misérias de uma mente acuada pelo medo.

Até que o telefone da clínica tocou e uma assistente chamou no corredor: “Vanusa, tem um tal de Zeca Baleiro querendo falar com você”. O nome Vanusa passou a habitar os planos de Zeca desde o show coletivo que ele havia feito com ela no Sesc Pompeia, em São Paulo. A cantora estava viva. “Vanusa”, disse Zeca ao telefone, “pense em algo que vou te dizer, não precisa responder ainda”. “Diga, Zeca”. “Quer gravar um disco comigo?” A tremedeira não era mais de pânico, mas de surpresa. “Eu quase caí pra trás.” Assim que deixou o tratamento, seis meses depois da internação, Vanusa entrou no estúdio da Saravá Discos, de Baleiro, aproximou-se do microfone, sentiu o amparo dos músicos e chorou com vontade de chorar. Há 20 anos ela não gravava nenhuma nova canção.

Avenida Rio Branco, centro de São Paulo, dois anos depois. Sentada ao lado de Zeca Baleiro, Vanusa está maquiada e em cores alegres. Seu disco está pronto, Vanusa Santos Flores. São dez faixas que incluem algumas regravações e outras inéditas, discutidas uma a uma com o produtor. Nada de ‘melhores de Vanusa’, como Paralelas ou Manhãs de Setembro nem nostalgias das tardes de 1970, quando ela fez seus discos mais psicodélicos. “Eu não queria voltar com Manhãs de Setembro, precisava de material novo”.

E, então, o disco gira para se tornar agora apenas disco e falar por si. Afinal, como está a voz de uma cantora que ficou duas décadas sem ver um microfone frente a frente? O quanto Zeca Baleiro conseguiu trabalhar sua cliente para que ela contivesse a ansiedade típica dos distúrbios pós-traumáticos e fizesse valer cada frase? Qual Vanusa estaria ali? Se não a dos anos 70, explosiva e ousada, a dos 80, romantizada e abrangente? O quanto seria o disco o exercício de um exorcismo pessoal?

Suas canções são sobretudo canções, sem novas formas e experimentos minimalistas, que passariam no teste do violão se não houvesse banda. E que podem encontrar um ponto de intersecção com os conceitos de Zeca Baleiro no folkismo das cordas de aço e dos pianos emocionados. Vanusa, aponta o próprio Zeca, alternava sentimentos e estados emocionais a cada sessão de gravação. Às vezes chegava mais frágil, em outras leve e divertida. Sua voz denuncia tudo. Apesar de não haver músicas que retratem diretamente seus dias de angústia ou de libertação, eles estão lá. Vanusa está por um fio na belíssima Esperando Aviões, de Vander Lee. Canta à beira de um abismo, chorando por dentro e por fora, enquanto diz: “Meus olhos te viram triste / Olhando pro infinito / Tentando ouvir o som do próprio grito”. E que vai concluir que: “Sou um velho diário perdido na areia / Esperando que você me leia / Sou pista vazia esperando aviões”.

Compasso, de Angela RoRo e Ricardo MacCord, foi sugestão de Zeca. Angela nunca habitou muito o planeta de Vanusa, mas ali era tudo o que ela queria dizer: “Vou carregar de tudo vida afora / Marcas de amor, de luto e espora / Deixo alegria e dor ao ir embora/ Amo a vida a cada segundo / Pois pra viver eu transformei meu mundo / Abro feliz o peito, é meu direito”.

Outra canção grande e cheia de cores é Abre Aspas, de Nô Stopa e Marcelo Bucoff. São três partes que crescem em calor e ganham ápice ao dizer: “Se o mundo anda em linha reta / Eu ando em linha torta / Eu ando do meu jeito”. Um jeito de Nô ver a vida e, de novo, uma transcrição da Vanusa atual. O pai de Nô, Zé Geraldo, tem finalmente gravada pela cantora Mistérios, feita com Mário Marcos, que só não entrou em seus discos anteriores por rejeição de Antonio Marcos, ex-marido de Vanusa. E há uma regravação de O Silêncio dos Inocentes, de Zé Ramalho, simbólico na vida de Vanusa, já que foi ela a primeira a apontar para Zé, em 1977, quando ninguém acreditava em Avohai e ela a gravou.

A esta altura, não há mais como separar a mulher da cantora. A voz de Vanusa não está sólida, mas é justamente nos quase deslizes que ela carrega as feridas que a fazem chegar onde quer. Sem buscar a perfeição artificial, Zeca Baleiro lhe deu a dignidade de que mais precisava.

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