Ute Lemper traz cabaré a SP

O novo milênio trouxe uma série de mudanças na carreira da cantora, dançarina e atriz alemã Ute Lemper, que vai se apresentar pela primeira vez no Brasil, no Teatro Cultura Artística, nos dias 25, 26 e 27. Considerada a melhor intérprete de Kurt Weill da atualidade, Ute decidiu aproximar-se de compositores contemporâneos e, em seu mais recente CD, Punishing Kiss, reuniu nomes até então estranhos ao seu repertório, como Elvis Costello e Nick Cave.E, para o próximo trabalho, prepara mais uma inovação, cantando músicas de sua autoria. "Mas, em nenhum momento, deixo Weill de lado, pois suas composições sempre nortearam minha carreira", comentou a cantora em entrevista, por telefone, de Nova York, garantindo a presença de músicas do autor alemão em sua apresentação brasileira.Considerado um dos mais notáveis compositores do século passado, Weill, principal parceiro de Bertolt Brecht, incendiou o palco com temas provocantes (prostituição, jogo, crise moral do capitalismo) e criou um tipo de escritura musical igualmente subversiva. Ao longo dos anos, uma série de cantoras garantiu a qualidade de seu repertório, como Marianne Faithfull e Nina Simone. Mas foi Ute Lemper quem reproduziu com exatidão o tom de cabaré operístico, graças à sua habilidade em dançar e, principalmente, à voz cristalina.Filha de um banqueiro e de uma cantora amadora, Ute nasceu em Münster, pequena cidade alemã, em 1963. Logo deixou a família para estudar balé, em Viena, onde foi convidada, em 1983 para a versão austríaca do musical Cats. Três anos depois, interpretando Sally Bowles, em Cabaret, ganhou o prêmio Molière. Participou de outros musicais, como O Anjo Azul e Chicago, além de trabalhar com importantes cineastas como Peter Greenaway (A Última Tempestade). Nada, porém, a motiva mais que a música.Agência Estado - O que você pretende apresentar, em seu primeiro show no Brasil?Ute Lemper - Como será minha primeira vez, quero apresentar um pouco de tudo que compõe meu repertório tradicional, ou seja, jazz, canções francesas de Edith Piaf, Jacques Prévert; as músicas consagradas de Marlene Dietrich; vou também cantar as canções contemporâneas de meu último CD, Punishing Kiss, como Elvis Costello, Tom Waits, Nick Kave. E Kurt Weill, é claro, cujas composições foram decisivas para que eu definisse o rumo da minha carreira. (rindo) E, antes que você pergunte, não vou cantar nenhuma canção de Stephen Sondheim.Mas, por quê?Claro que ele é um compositor acima da média, especialmente quando comparado aos que escrevem para a Broadway. Mas, para a concepção que tenho do show, prefiro deixá-lo para uma outra oportunidade.Você poderia detalhar a razão de sua paixão pelas músicas trágicas de Kurt Weill?Tenho uma grande identificação com os tempos difíceis da Alemanha em que Weill viveu, uma época em que ele traduziu de forma única a paixão, o desejo, a frustração que assolava o país. Criou também, junto com Bertolt Brecht, um teatro revolucionário, que era tão anárquico como controverso, mas, curiosamente, também didático, pois buscava educar politicamente as pessoas por meio da música.Quando se refere às músicas de Weill, você gosta de dizer que há muito de "sehnsucht" (busca de um sentimento, em alemão), em suas canções. O que isso significa?É uma maneira inovadora de retratar a solidão, a impossibilidade, os sentimentos solitários. Diz respeito a um momento particular da cultura alemã, em especial a que vigorou nos anos 20 do século passado, quando reinava o desejo de conseguir algo inatingível ou chegar a um lugar inalcançável. É como o conflito de Fausto, ou seja, a impossibilidade de ser feliz, de reter um momento maravilhoso.

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