Ute Lemper confirma talento em recital

Ute Lemper não é apenas uma cantora. É a remanescente daquela raça de performers que desabrochou na inquieta Berlim dos anos 20, e que fazia do palco de lugares como o Neo-pathetisches Cabaret a tribuna do protesto e do testemunho sobre a realidade que vivia. Ela é talvez a última representante da arte que viu nascer as óperas politizadas de Weill e Brecht, as sátiras de Marcellus Schiffer, as canções irreverentes de Spoliansky e Fred Raymond. Ute dança, faz mímica, se contorce, canta com o corpo. No recital de segunda-feira, no Cultura Artística, essa "one woman show" mostrou como sabe modular a voz, da fala rouca e sussurrada à cantilena com coloratura, usando os mais diversos recursos vocais para realçar os climas poéticos ou dramáticos das canções que interpreta, de uma forma que lembra Cathy Berberian em seus melhores momentos. Ela incorpora a personalidade vocal e histriônica de Lotte Lenya e Marlene Dietrich, de Edith Piaff e Juliette Greco - até mesmo de Jacques Brel, quando reedita seu estilo de cantar em Le Port d´Amsterdam. Na canção título de All That Jazz, que fez em extra, chegou a brincar com a deformação eletrônica de sua voz de um modo que faz pensar em Laurie Anderson. Mas sempre sem perder o contato com a forma inconfundível de interpretar de frau Lemper que, ao mesmo tempo, preserva o grande acervo cabaretier alemão e francês dos anos 20 e 30, e obtém de autores modernos como Elvis Costello que lhe renovem o repertório com a interessante Punishing Kiss. Acompanhada por um trio - Bruno Fontaine, piano; Dan Cooper, baixo; Todd Turkisher, bateria -, Ute Lemper demonstra seu talento camaleônico, recriando a Lola que Marlene Dietrich fez no Anjo Azul de Josef Sternberg, ou cantando clássicos de Kurt Weill: Bilbao Song, de Happy End; ou Moon of Alabama, de Mahagonny. E brinca com a platéia, durante a interpretação da maliciosa I Am a Vamp, de Spoliansky, descendo do palco e atacando os homens da primeira fila, mordendo-lhes o pescoço como se fosse uma vampira. Mas é sobretudo nos momentos sérios do espetáculo que Ute Lemper faz sentir a real dimensão de seu talento. Na Munchausen, de Holländer, um dos mais brilhantes autores de canção daqueles anos de chumbo em que o nazismo estava em ascensão; uma canção em que a figura do mentiroso barão surge como a metáfora de um mundo que está perdendo as suas ilusões. Na Ne Me Quitte pas, de Jacques Brel, cantada de jeito a rasgar pelo meio o coração. Mas também no irônico Moritat von Mackie Messer, da Ópera dos Três Vinténs, da dupla Weill-Brecht, que zomba da brincadeira de mau gosto que a vida tantas vezes pode ser. Ute Lemper. Hoje, às 21 horas. De R$ 80,00 a R$ 120,00. Teatro Cultura Artística. Rua Nestor Pestana, 196, tel. 256-0223. Até quarta. Patrocínio: Bovespa, Telefônica e Votorantim

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