Universal homenageia Mirella Freni em disco duplo

Aos 70 anos de idade e com 50 anos dedicados ao canto lírico, Mirella Freni, que reinou ao lado da conterrânea Renata Scotto no pós-Callas, chegou aonde chegou porque soube sempre escolher com cuidado os papéis a serem interpretados. E o resultado é uma longa fila de grandes trunfos, reunidos no disco duplo que a Universal acaba de lançar no mercado nacional, uma das muitas homenagens previstas para este ano.Foi o austríaco Herbert von Karajan quem deu a Mirella os primeiros empurrões na carreira. "Conosco, não era necessário palavras. Bastava estarmos juntos e a coisa fluía", ela lembra. Foi ele também quem a orientou a esperar antes de enfrentar alguns papéis e iniciar de fato a carreira. "Por que continuo a cantar ainda hoje? Porque aprendi, com ele, a dizer não." Esse "não" fez diferença. Freni evitou papéis como Butterfly ou Aida por um bom tempo - e quando os interpretou, foi ao lado de Karajan, assim como ocorreu com a Desdêmona do Otello, gravada em vídeo no início dos anos 70, um dos primeiros registros da jovem que já dava sinais claros de autenticidade e qualidade vocal (esse vídeo existe em DVD da Unitel). Outro registro de início de carreira, a da Nanetta do Falstaff, também está no disco agora lançado. Dos anos 60, é um dos seus primeiros trabalhos. E ao ouvi-lo, chama atenção não apenas a bela voz. Há algo mais, um apurado - e delicioso - cuidado com as palavras e seus significados. "O grande desafio do cantor é encontrar um meio de expressão", ela explica. "Ter uma bela voz ajuda? Muito, é fundamental. Mas é preciso saber usá-la como instrumento para se atingir algo mais. A expressividade. Nas master classes que dou, é o que me chama mais atenção. Ali estão aquelas vozes maravilhosas, saindo de cantores que não sabem o que estão dizendo. Não dá para falar em amor, ´amore´, sem sentir lá no fundo o que se canta." O curioso é que ela afirma que foi o repertório russo que a ajudou a entender isso definitivamente. Seu segundo marido, o búlgaro Nicolai Ghiaurov, morto no ano passado, é quem a convenceu a enfrentar papéis como a Tatiana do Oniéguin, de Tchaikovsky, que ela gravou em 1988 com James Levine. "Sou apaixonada por vozes e sempre adorei ouvir aqueles cantores russos maravilhosos. Aí resolvi cantar aquele repertório. Você trabalha muito, estuda, ensaia. Mas, quando está no palco, é como se estivesse em meio a um sonho. Essa sensação é única. E, enquanto não sente isso, o cantor não está realmente pronto." E isso, claro, é um processo. "Quando era jovem, sentia tudo intensamente. No início, há uma atração pela beleza, especialmente no repertório italiano, no bel canto, pela melodia, pelas linhas do canto. Depois, a experiência muda um pouco. E essa beleza, essa qualidade vocal, acaba se transformando num modo, um caminho, para você olhar lá dentro. E tentar descobrir o que quer dizer cada palavra. E, conseqüentemente, a melhor maneira de pronunciá-la."Mirella Freni conversou com a reportagem por telefone, de Nova York. Está há 40 dias nos EUA, cantando e sendo homenageada. Tem ainda todo um futuro pela frente, diz. "Minha mãe está com 88 anos e muito de minha força vem do exemplo dela." Em maio, o Metropolitan Opera House, de Nova York, promoverá uma gala em sua homenagem. Estarão lá os maestros, os cantores com quem dividiu a carreira e o público que fez dela a grande soprano do teatro durante décadas. E depois? "Depois? Não sei. Só sei que agora quero ir para casa, descansar um pouco. Aí, veremos."

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