Uma viagem de blues na estrada de Eric Clapton e Cale

Pouca gente espera os estertores de um ano para fazer as suas listas de melhores álbuns. É por isso que dificilmente o leitor encontrará este disco, The Road to Escondido, de JJ Cale e Eric Clapton, nas listas de melhores de 2006, mas certamente deveria estar lá. Nossa culpa, nossa tão grande culpa. Trabalho maduro de dois grandes instrumentistas, foi também o derradeiro testamento musical de um músico extraordinário, Billy Preston (1946-2006), que morreu no dia 6 de junho. Preston, que foi uma marca distinta no som dos Beatles toca órgão Hammond e piano Wurlitzer nas gravações. E quem é JJ Cale, o sujeito que ganhou essa reverência de Eric "Slowhand" Clapton de ter um disco em dueto? Bom, Jean Jacques Cale, de 68 anos, foi o sujeito que compôs dois dos maiores sucessos da carreira de Clapton, Cocain (megahit do álbum Slowhand, de 1977) e After Midnight. Além do mais, esse é um disco all stars. Além de Clapton & Cale, comparecem na grande orquestra de gravação gente como o guitarrista John Mayer, o baixista Pino Palladino, o multiinstrumentista Taj Mahal (tocando gaita) e o guitarrista Albert Lee, entre muitos outros. Bluesmen brancos e crepusculares, Clapton e Cale fizeram um disco que se destaca menos pela potência e do que pela parcimônia. É um álbum tranqüilo, curtido sem pressa, como um bom bourbon sulista. Imperdíveis Três faixas se destacam, começando pela suave (e cheia de auto-ironia) Sporting Life Blues, de Brownie McGhee. "Recebi uma carta de casa/ Todos meus antigos colegas de escola estão mortos/ Isso deveria te preocupar/ Isso deveria te fazer pensar sobre o que vem por aí." Depois, impossível não se comover com Don?t Cry Sister (que recebe uma cadência de reggae, semelhante ao clássico I Shot the Sheriff) e a bela Last Will and Testament. Sobra espaço até para um manifesto pacifista, When This War Is Over. As guitarras de Cale e Clapton não se alinham como irmãs siamesas, mas como duas tradições distintas. O americano é mais tradicionalista (entre o boogie e o zydeco, o pântano e a cidade elétrica), enquanto o inglês Clapton vem de uma tradição sessentista, que tingiu o blues com tintas psicodélicas. Clapton, que se cansou recentemente das grandes turnês mundiais, dos shows em estádios e da roda-viva do show biz, abriu para que o americano apresentasse o repertório, e Cale é o autor de 11 das 14 faixas. As composições remontam um caleidoscópio de blues, jazz, country, baladas e jornadas hillbilies. E olha que o Escondido de que trata o título do álbum nem é um lugar tão remoto assim, é uma cidade na Califórnia. O disco lançado no Brasil pela Warner Music, que o leitor encontrará nas lojas, lista apenas 13 músicas no encarte. No entanto, persista, procure pela 14ª, Ride the River, que vale a pena, é um encerramento triunfal para uma viagem de blues na estrada ritualística que leva para Escondido.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.