Daniel Mansur
Daniel Mansur

Uma 'Traviata' monumental, feita de pequenos gestos

Produção de Jorge Takla abriu a temporada lírica do Teatro Municipal de São Paulo

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado

22 Maio 2018 | 22h24

Quando a censura resolveu criar problemas para Giuseppe Verdi às vésperas da estreia de Rigoletto, questionou a escolha de um bobo da corte corcunda como protagonista. A resposta do autor tornou-se símbolo do que definiria sua obra dali em diante: “Um corcunda que canta! Por que não? Vai causar efeito? Não sei. Mas, se eu não sei, eles tampouco o sabem. Achei que seria belo retratar esse personagem deformado e ridículo, mas que é, interiormente, apaixonado e cheio de amor”.

+++ Projeto '7 Leituras' faz homenagem ao escritor Federico Garcia Lorca​

Rigoletto se aproxima de La Traviata e Il Trovatore (formando a chamada trilogia romântica) na tentativa de trazer para o centro da ação personagens tidos como marginais. É isso que vai permitir a Verdi tratar de um de seus temas preferidos, a oposição entre o desejo individual e a imposição do coletivo, por meio de um mergulho profundo na caracterização dos personagens e seus conflitos internos.

+++ Evento em São Paulo reúne contadores de histórias

Conflitos não faltam na Traviata, baseada no texto de Alexandre Dumas Filho sobre a cortesã que se apaixona pelo jovem Alfredo, mas vê seu amor impossibilitado pelas convenções da época. E é nesse caráter intimista que está o melhor da produção da ópera que abriu na última semana a temporada do Teatro Municipal de São Paulo. Isso porque, ao optar pelo monumental de corte histórico nos cenários e figurinos (assinados por Nicolas Boni e Cássio Brasil), o diretor Jorge Takla acaba por colocar justamente na direção de atores o foco e o sentido da narrativa e do drama.

+++ 'Colônia' retrata o episódio conhecido como 'holocausto brasileiro'

A soprano bielo-russa Nadine Koutcher constrói uma Violeta tomada desde o início, mesmo em seus devaneios a respeito da possibilidade do amor ao lado de Alfredo, por um comovente senso de tragédia. Por sua vez, o barítono Paulo Szot amplia as possibilidades de leitura de Germont, o pai do rapaz, a partir de um lirismo poucas vezes associado ao papel. O dueto dos dois, em que ele exige/pede a Violeta que se afaste do filho, é marcado por uma tensão dilacerante, feita acima de tudo de olhares e gestos mínimos. Força, afinal, não é o mesmo que intensidade, uma percepção que faltou ao Alfredo do tenor Fernando Portari, exagerado, de cores veristas.

+++ Aluno de balé com 80 anos vira exemplo na internet

Se o desempenho do Coral Lírico e da Orquestra Sinfônica Municipal pareceu irretocável, a regência de Roberto Minczuk, ao optar por alterações bruscas, do forte ao pianissimo, do rápido para o lento, soou pouco orgânica, em momentos que vão desde o delicado prelúdio até a grande cena coral com que se encerra o segundo ato. O resultado é que o ritmo da narrativa nem sempre se mantém, o que pode ser mortal em uma ópera como esta, que extrai da coesão do drama sua genialidade.

LA TRAVIATA

Teatro Municipal. Pça. Ramos de Azevedo, s/nº, tel. 3053-2090. 4ª (23) e 6ª, 20h. Ingressos: R$ 40/R$ 150. Até 23/5. 

Mais conteúdo sobre:
Giuseppe Verdiópera

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.