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Uma 'simplicidade primal', notável em Maria João Pires

Pianista portuguesa de 70 anos, naturalizada brasileira, exibe uma fluidez do fazer musical como algo inseparável de sua vida

JOÃO MARCOS COELHO, ESPECIAL PARA O ESTADO

19 de outubro de 2014 | 03h06

Em entrevista tempos atrás, a pianista portuguesa Maria João Pires confessou-me que gostaria de ter vivido no século 18, tempo mais adequado à sua visão de mundo. A frase não era só sacada de momento. Reflete sua concepção de arte e vida. Ela assumiu holisticamente a música e a integrou ao essencial de seu dia a dia, como alimentar-se, dormir, amar.

Por que século 18, e não o 19, período de ouro dos pianistas? Porque naquele período histórico a prática musical era apenas mais uma das tarefas do dia a dia das pessoas. Os músicos eram contratados para se apresentarem nos palácios e cortes dos nobres. E estes tratavam um Haydn ou Mozart com a sem-cerimônia com que pediam vinho aos serviçais. A música fluía de modo cotidiano. Sequer havia a noção da obra como criação artística. Ela era artesanato, papel de parede sonoro, diria Satie, para jantares e festas da nobreza.

Magicamente, a João - hoje com 70 anos, morando no Brasil e naturalizada brasileira para sorte nossa - absorveu esta fluidez do fazer musical como algo inseparável da vida. Descartou a postura de um Liszt, por exemplo, que inaugurou a linhagem dos super-heróis do piano, os deuses do teclado que até hoje enfeitiçam as plateias com seus superpoderes. Esta é a razão oculta que faz do toque pianístico da João algo muito diferente do que se ouve em 99,99% das gravações e concertos das obras que ela interpreta: despida do véu postiço da virtuosidade, ela deixa fluir a música do cérebro para os dedos num movimento espontâneo. Num texto curto no folheto do CD com os concertos nº 3 e 4 de Beethoven que acaba de gravar com a Orquestra Sinfônica da Rádio Sueca (selo Onyx) regida por Daniel Harding, a João fala em "simplicidade primal".

O que ela entende por "simplicidade primal" é esta concepção setecentista, espontânea, da prática musical. Um exemplo que você pode ver no YouTube: Riccardo Chailly inicia o concerto nº 20, K. 466, de Mozart, mas o concerto previsto era outro. Ela se espanta; ri; eles conversam diante do público enquanto a introdução sinfônica rola; e ela ataca o concerto na maior naturalidade. Risos, conversas, em plena situação de concerto. Simplicidade primal e poética. Basta ver a poesia que extrai da integração fluida do piano com a orquestra e a infinita doçura de sua paleta de timbres nos movimentos lentos. No citado Andante con moto do concerto nº 4, ela borda delicadamente os oito compassos da bela melodia. Cinco minutos de pura musicalidade.

Quem esteve na Sala São Paulo, em maio passado, encantou-se com o concerto nº 4 com Mitsuko Uchida, a Orquestra da Rádio da Bavaria e Mariss Jansons. Qual a diferença entre elas? O piano de Uchida preservava certa distância em relação à orquestra, enquanto a João se funde no tecido sinfônico. Isso fica ainda mais evidente em sua leitura do terceiro concerto de Beethoven, no mesmo CD: se o Largo é sublime, o amplo Andante con brio inicial é tocado pela João apenas "con brio" e não desembestadamente. Assim como, aliás, o Allegro moderato do quarto concerto, que começa com acordes repetidos muito semelhantes a algumas de suas sonatas para piano. Ele é tocado "moderato" mesmo, e não fogoso, como em geral acontece. Em Uchida, há um certo heroísmo, muito contido, claro, nos momentos mais virtuosísticos.

Ambas, é claro, estão num nível superlativo, e muito distantes dos atletas dispostos a demonstrar um suposto lado lisztiano de Beethoven neste concerto. Na verdade, quando são excelentes, é difícil estabelecer diferenças claras entre os pianistas. Afinal, como afirma Luca Chiantore, "as diferenças técnicas são mínimas: todos formaram-se no mesmo repertório; todos tocam em grandes salas de concerto; e todos (ou quase todos) tocam o mesmo instrumento, um Steinway". Daí a síndrome da busca por um mísero viés original, mesmo que às custas de distorções da música. Daí resulta a gestuália excessiva dos pianistas, sobretudo em situação de concerto com orquestra, distorção nascida com Liszt.

Não por acaso, Robert Schumann, depois de ver o húngaro em um de seus recitais-shows, anotou que "é necessário vê-lo, e não só ouvi-lo". Em outro CD, lançado esta semana, a João sola o concerto de Schumann ao vivo com a Orquestra Sinfônica de Londres regida por John Eliot Gardiner, em 21de janeiro passado no Barbican Center (CD LSO Live). É ideal para a "simplicidade primal" da João. O compositor qualificou-o de "algo entre o concerto, a sinfonia e a grande sonata. Piano e orquestra integram-se numa junção lírica rara no gênero. A regência de Gardiner é o melhor que a João poderia esperar. Ela começa mais afirmativa no Allegro affetuoso inicial, assume um intenso lirismo no curto Intermezzo e ambos terminam em eloquente abraço no Finale.

Como brasileira que é agora, a João deveria obrigatoriamente nos brindar todo ano com ao menos um concerto com orquestra e um recital. Queremos partilhar mais com ela sua "simplicidade primal".

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