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Uma santa Adele de ficção

Retratada como heroína, problema nas cordas vocais é subestimado

Emanuel Bomfim - O Estado de S.Paulo,

27 de janeiro de 2012 | 21h30

É até esperado que biografias precoces já cheguem com data de validade vencida. No caso de Adele, assinada pelo jornalista especializado em celebridades Chas Newkey-Burden, a pressa em retratar a curta trajetória da cantora número 1 do momento não permitiu investigar um dos fatos mais relevantes na vida da britânica: a saúde de sua voz.

É sabido, e amplamente noticiado, que a jovem artista de 23 anos passou por uma cirurgia na garganta por conta de um pólipo benigno nas cordas vocais. Ela cancelou turnê, sumiu do mapa, virou especulação de jornais sensacionalistas. Até mais magra ficou, segundo relatos.

Ora, a possibilidade da perda ou comprometimento de seu principal instrumento de trabalho não deveria ser um tema obrigatório num livro deste porte? Aparentemente sim, mas não está lá. Há, no máximo, o princípio do problema (uma laringite) e a possível causa do mal: a combinação de cigarro e bebida alcoólica. Adele, diz a obra, é fã de vinho tinto.

"O risco real dos problemas com sua saúde tem sido muito exagerado", pondera o autor do livro em entrevista ao Estado. "O que é seguro dizer é que ela ficou extremamente assustada com a situação, passou a ver o mundo de outra maneira", completa ele.

Chas, que já escreveu as biografias de Amy Winehouse, Michael Jackson e Paris Hilton, poupa qualquer análise mais profunda sobre a cena pop atual. Como numa ficção, Adele é a protagonista quase única, tratada como uma verdadeira heroína. "Eu queria escrever sobre ela porque sou fascinado por pessoas realmente talentosas - e não há no momento cantores mais talentosos do que Adele. Além disso, fiquei interessado pelo fato de que ela é uma pessoa feliz, mesmo que suas canções sejam tristes", explica.

De fato, a Adele que conhecemos no livro parece formidável. Tem senso de humor, é companheira, apegada à família e amigos, além de não ligar para fama. Até com sua aparência rechonchuda ela é bem resolvida. É como se o principal trunfo desta história fosse o rompimento da lógica que costuma cultuar estrelas pop de corpo esbelto e produção esfuziante, da turma de Lady Gaga, Rihanna, Beyoncé e Katy Perry. O marketing associado à londrina é infalível: uma obra que é autêntica e autobiográfica. Curioso é perceber como alguns de seus principais ídolos sejam da seara, digamos, mais "comercial", como as Spice Girls.

Em poucos momentos vemos uma Adele disposta a fazer música como um exercício ou até como quem encara uma profissão. Tudo é fruto do turbilhão de sentimentos emergidos a partir de desencontros amorosos. Ô moça mais mal-amada! Cada rompimento, cada dor de amor, gerava um punhado de canções inspiradas. Seria, então, capaz de sobreviver musicalmente sem vivenciar o fim de mais uma paixão avassaladora?

"Eu acho que ela acredita nisso", argumenta o escritor inglês. "Mas, pessoalmente, vejo que Adele é capaz de escrever em qualquer situação", defende.

Mesmo que o aspecto passional pareça prevalecer, a biografia dedica um capítulo - aliás, o melhor deles - ao lado menos intuitivo da produção da cantora: sua formação na Brit School. Fundada no começo dos anos 1990, a escola pública se especializou em moldar jovens talentos (de 14 a 19 anos) para o mundo das artes, em especial a música. A lista de celebridades que passou por lá é generosa e inclui nomes como Amy Winehouse, Leona Lewis, Katie Melua, Jessie J. e Kate Nash.

Adele, outra ex-aluna famosa, viu na instituição uma chance de se motivar para o estudo, mas não tinha planos traçados para virar uma estrela. "Eles nos ensinavam a ter mente aberta e éramos incentivados a escrever nossa própria música - e alguns de nós levávamos isso a sério; outros, não. Eu levei muito a sério", afirma a cantora no livro.

Para Chas, a Brit School dá certo por evitar uma linha elitista. "O segredo é que ela é pé no chão. Enquanto alguns alunos prosperam em um ambiente competitivo, outros precisam se sentir confortáveis. A Brit desenvolve o lado criativo, em vez de apenas o instinto ambicioso."

Como num artigo estendido da Wikipédia, Adele informa, mas pouco sugere. É um produto para fã, não há dúvida. Algo como uma faixa-bônus de pouco mais de 200 páginas.

TRECHOS

Adele elogiou Amy Winehouse e o fato de ela ter liderado uma nova leva de cantoras da instituição de Croydon...

Isso era o 'poder feminino' em ação. 'Acredito que Amy abriu o caminho para mim e para Duffy. Antes, apenas uma menina por ano aparecia na indústria, mas, agora, seis ou sete novas surgiram nos últimos anos: Amy, Duffy, Lily e Kate.'

"Ela explica que sempre manteve a questão da aparência em 2º plano...

Adele venceu como uma mulher que gosta de se divertir e que só se lembraria desse assunto se ele atrapalhasse a sua alegria. '... Minhas amigas e eu comemos um prato cheio de macarrão se estivermos com fome... não nos importamos. Os meus amigos gays costumam se preocupar mais com peso'

ADELE

Autor: Chas Newkey-Burden. Tradução:Carolina Caires Coelho. Editora: Leya (212 págs., R$ 30)

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