Fred Debrock
Fred Debrock

Uma obra-prima do século 21 tecida com canções de luta 

Recital do ótimo pianista belga Daan Vandewalle foi realizado na Biblioteca Mário de Andrade

João Marcos Coelho, Especial para O Estado

02 Dezembro 2017 | 12h57

Em tempos kafkianos em que as artes só chegam ao grande público via polêmicas absurdas, um evento essencial porém de nicho, como o Festival de Música Estranha, não leva a menor chance de sobreviver. Nos últimos quatro anos, Thiago Cury vem mostrando as músicas experimentais que rolam pelo País e pelo mundo, de certo modo substituindo hoje o Festival de Música Nova tal como Gilberto Mendes o concebeu. 

Nesta quinta edição, perdeu o apoio do Centro Cultural São Paulo no último segundo. Ele só está de pé por causa do apoio de instituições internacionais - e do crowdfunding, o nome chique de vaquinha de músicos e pessoas que têm paixão pelo novo e desejam, como reza o slogan do festival, "combustível sonoro para mentes inquietas".

Assim, o recital do ótimo pianista belga Daan Vandewalle, inicialmente programado para o CCS no sábado 25, foi às pressas realocado para domingo, 26, ao meio-dia e meia no acolhedor auditório da Biblioteca Mário de Andrade. Resultado: poucas pessoas tiveram o privilégio de assistir à estreia latino-americana de Songs of Insurrection, de Frederic Rzewski (1938), uma das obras mais instigantes compostas nestes dois últimos anos.

Vandewalle vem percorrendo o mundo tocando estas impactantes variações sobre sete das mais famosas e célebres canções de luta de populações oprimidas durante o século 20. Um emocionante caleidoscópio de canções emblemáticas, como Grândola, Vila Morena, que embalou os portugueses na Revolução dos Cravos de 1974 e acabou com a ditadura salazarista; ou então A Canção dos Deportados, entoada pelos prisioneiros de Börgermoor, o primeiro campo de concentração inaugurado pelo nazismo, em 1933.

Outras canções altamente simbólicas: Katyusha, entoada pelos soldados russos resistindo à invasão nazista na Segunda Guerra e depois repetida por outros movimentos de resistência na Grécia e Itália; a canção gospel Ain't Gonna Let Nobody Turn Me Around, que se tornou o hino da luta pelos direitos civis nos EUA dos anos 1960 (gravada por Joan Baez); e Los Cuatro Generales, a canção de García Lorca na Guerra Civil Espanhola de 1936-39.

Mesmo com matéria-prima tão rica, Rzewski não construiu o óbvio, um pot-pourri. Em vez disso, trabalha fragmentos de melodias e refrões, dá espaços para improvisos do pianista; e, acima de tudo,  oferece uma escrita pianística de primeira. Ou seja, de novo, como em 1976, quando compôs as hoje célebres 36 Variações sobre 'o povo unido jamais será vencido', Rzewski põe de pé um monumento artístico que vai muito além da panfletagem. É um emocionante choque de consciência, a lembrar-nos de que o risco autoritário sempre nos ronda perigosamente e pode chegar de repente. Vide Trump, vide Bolsonaro.

 

Cotação: excelente

 

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