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Uma noite de música e política, com Gidon Kremer

Violinista letão ainda é capaz de surpreender a cada vez que sobe ao palco

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2016 | 13h14

O que separa um músico de exceção, extraordinário, do músico comum, talentoso, disciplinado, mas convencional? Uma das respostas possíveis foi dada na noite de segunda-feira, 20, pelo violinista Gidon Kremer e sua Kremerata Báltica, em concerto na Sala São Paulo. Aos 69 anos, este incrível letão da cidade de Riga ainda é capaz de surpreender a cada vez que sobe ao palco. Mistura convicções políticas, críticas a seu país, Rússia, em texto no programa impresso, com alta voltagem de criatividade na concepção do repertório a ser apresentado. O que separa uns e outros, Kremer provou mais uma vez, é a chama da inquietação artística e a consciência plena de sua inserção no meio não só cultural, mas político no qual o artista vive. "Hoje, a política na Rússia revela o lado negro da famosa 'alma' desta nação. Embora seus cidadãos sejam com frequência enaltecidos por sua generosidade e por seu calor humano, a Rússia está em processo de perda de suas maiores qualidades (...) Alimentados por pseudopatriotismo e insaciável sede de poder, os políticos e a política revelam um lado sombrio, ao mentirem constantemente  para o mundo e para o seu próprio povo." 

É um autêntico manifesto político sobre o governo Putin. Que continua assim: "É impossível negar que há uma certa 'lavagem cerebral' em curso e que a manipulação dos meios de comunicação está incentivando os russos a apoiarem as mais insanas doutrinas, dividindo radicalmente a sociedade em crédulos e incrédulos, apoiadores e inimigos". Toda semelhança com o racha político vivido pelo Brasil nos últimos treze anos não precisa ser necessariamente mera coincidência.

Não sei se ele soube que Gergiev, o maior garoto-propaganda de Putin, pisou naquele palco há poucos meses, regendo os Quadros de uma exposição de Mussorgsky. Mas, além de seu engajamento político, Kremer é artista de exceção. Reprogramou a obra, também ouvida na versão solo original há poucas semanas pelo pianista turco Fazil Say - só que de modo inovador. Um arranjo recente do compositor britânico Jacques Cohen, 46 anos, e de Andrei Pushkarev, 42, contrabaixista da Kremerata, mostrou de que as cordas são capazes, em termos de diversificação de timbres e coloridos, apoiadas apenas por percussão. Os ouvidos quase não sentem falta da orquestra sinfônica exuberante do arranjo-padrão de Ravel.

Kremer foi mais longe. Concebeu a segunda parte como uma unidade. O programa advertiu que ela seria executada sem pausas, ou seja, sem aplausos. Companheiros de viagem de Kremer, embarcamos todos na bela "Serenata Melancólica" de Tchaikovsky, misto de música adocicada com ligeiros travos meio-amargos; fomos à exposição do pintor Victor Hartmann guiados pelo gênio de Mussorgsky, iluminado pelo excepcional arranjo citado; e comungamos o misto de beleza/tensão da música de Valentin Silvestrov, um dos compositores mais amados por Kremer.  

Se na segunda parte Kremer abriu e fechou esta "suíte", digamos, deixando a maior parte da música para sua excepcional Kremerata, na primeira ele solou dois concertos. Duas lindas surpresas. O concertino de Mieczyslav Weinberg (1919-1996), o polonês amigo de Shostakovich que só vem sendo executado e gravado na última década; e o arranjo surpreendente, para violino, cordas e tímpano, do concerto para violoncelo e orquestra de Robert Schumann. 

Uma noite para não esquecer. Música iluminada sob ângulos inesperados. E política, para não esquecermos da realidade perversa que nos rodeia. Nesta quarta, 22, Kremer e a Kremerata repetem o concerto de Schumann e acrescentam uma versão para cordas de Mahler para o quarteto de cordas 'Serioso', opus 95, de Beethoven; as "Estações" dominam a segunda parte: "The Seasons Digest", do russo Alexander Raskatov, 64 anos, baseado nas Estações para piano solo de Tchaikovsky que caminham mês a mês, retratando um ano inteiro; e Kremer sola as Quatro estações porteñas de Piazzolla, numa versão para violino e cordas, Imperdível.

Cotação: excelente

 

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