Uma gravadora para música feita em casa

A indústria mundial fonográfica passa por um de seus momentos mais críticos. Pirataria, Internet e, no Brasil, um projeto de lei que pode obrigá-las à numeração de CDs são alguns dos pesadelos das grandes gravadoras. A crise existe e os sucessivos maus resultados a atestam. Mas, antes de mais nada, é uma crise de indústria. A música vai bem, obrigado. E a música independente vai melhor ainda. Esta é a aposta da recém-lançada Outros Discos, de Maurício Bussab, uma gravadora que, na contramão do mercadão, quer valorizar a criatividade, a experimentação e o radicalismo de artistas confinados em seus próprios estúdios, freqüentemente caseiros.A idéia central da nova gravadora é cuidar da finalização e lançamento de discos prontos, ou quase prontos. Bussab, também tecladista e vocalista da Bojo, explica que, com o barateamento do custo de material de estúdio - computador, placa de som, microfones -, cada vez mais os músicos conseguem produzir, com qualidade, longe das grandes empresas. A Outros Discos entra com a engenharia de som, a masterização, a arte do CD. E põe o produto no mercado.A vantagem de produzir em casa é não depender dos altos aluguéis de estúdios nem da aprovação de executivos de grandes gravaroras. "O artista tem todo o tempo para criar, e com liberdade total." Para Bussab, é daí que podem surgir novas forças para a música brasileira. "Ainda não sei o que vem por aí, mas não adianta olhar para as grandes gravadoras. Elas não podem arriscar."Os primeiros discos da gravadora saíram em junho, ambos de Stela Campos, em torno dos quais nasceu o projeto. Céu de Brigadeiro é a reedição do disco lançado - e rapidamente esgotado - em 1999. Fim de Semana é um álbum de inéditas, em que a compositora saída da cena mangue beat - participou dos seminais Baião de Viramundo e da trilha sonora de Baile Perfumado - investe na temática urbana. Entre vinhetas e belas canções, sempre ancorada na música eletrônica, Stela passeia por ícones da vida moderna - como nas faixas TV, Segunda-feira, Despertador, Telefone e Fim de Semana - para compor um amargurado retrato da melancolia e tédio das grandes cidades.Este mês, mais dois lançamentos. Semana que vem, sai o disco gravado em 1992 e nunca lançado - a master estava perdida - do cult Funziona Senza Vapore, formado por três ex-intregrantes do Fellini mais Stela Campos. No fim do mês, é a vez de New Old World/Future Sun, assinado por Fat Marley, pseudônimo secreto - a Outros Discos não confirma - de André Abujamra, e localizado pelo material de divulgação "exatamente no meio do caminho entre a música búlgara de casamento e o drum?n?bass".Em agosto, outros dois discos: Cinema Auditivo, do compositor alagoano Wado, e, finalmente, o disco do Bojo, Vocabulário - Setenta Palavras para Descrever o Mundo. Nele, Bussab, Kuki Stolarski, Fê Pinatti e Du Moreira reuniram 70 "micromúsicas", cada qual batizada e inspirada em temas, palavras essenciais, como morte, casa, etc.A estratégia de distribuição é um dos pontos importantes no projeto Outros Discos. Ficará a cargo da Tratore, de Silvio Pellacani Jr. Segundo ele, as lojas tradicionais de disco estão acabando, e é necessário apoiar a distribuição em pontos alternativos: cafés, livrarias, cinemas, bancas, lojas de moda etc. Bussab está animado. Diz que os investimento que a gravadora fez em cada lançamento é pequeno, e que mesmo uma vendagem modesta pode pagar as despesas. Quer ir muito além destes primeiros seis CDs. A fama de sua gravadora tem crescido, e a prova está em sua caixa de correio eletrônico. Diariamente, conta pelo menos dois e-mails de músicos querendo mostrar o tal disco pronto, ou quase pronto. Embora tenha recebido muitos trabalhos interessantes, Bussab se surpreende com o número de músicas convencionais, "preocupados com mercado", que saem dos estúdios caseiros. Estas não terão vez. Na Outros Discos, o executivo exige do artista um trabalho livre, criativo.

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