Uma cadeira ainda está vazia

Quanta vida pode haver em uma existência de 26 anos? Aqui, no caso, o suficiente para criar um gênio legítimo e insubstituível

Martinho da Vila,

11 de dezembro de 2010 | 02h46

Noel Rosa em desenho de Carlinhos MullerNoel de Medeiros Rosa, o Poeta da Vila que foi promovido no meu CD a Poeta da Cidade, se não gostasse tanto de viver faria 100 anos hoje. Morreu cedo porque foi intensamente afoito: adolesceu na boemia, bebia até cair, paquerava todas as moças sonhadoras de Vila Isabel. Namorou muitas de família ao mesmo tempo, transou com mulheres de todas as cores, de várias idades, de muitos amores... Casadas, livres, meretrizes... Incredível como moças bem-comportadas, religiosas, jovens e idosas virgens, sonhavam casar com aquele branquinho magricela de rosto defeituoso e farrista.

Noel só gostou mesmo da Lindaura, com quem casou-se para morrer, pois já estava tuberculoso, mas sua paixão era Ceci, a Dama do Cabaré. Com esta queria viver uma vida a dois, mas ela era como ele, de muitos amores. Sempre foi o preferido de Ceci, mas sentiu que estava sendo preterido pelo jornalista Mário Lago, jovem como Noel, mas o inverso dele - bonito e sempre bem vestido, fino. Tratava Ceci como uma dama, mas não de cabaré, da sociedade. Levou dançarina pela primeira vez a um teatro, o que muito a sensibilizou. Sinalizou para Noel que seu coração estava dividido e que não pretendia abrir mão do seu novo amor. Desesperado, ele decidiu abandoná-la, mas pediu que Ceci satisfizesse o seu último desejo carnal. Foi atendido. Inspiradíssimo e apaixonado, compôs uma das suas últimas criações, um samba de despedida, dela e da vida: "Esse amor que não me esqueço/ E que teve seu começo numa festa de São João/ Morre hoje sem foguetes, sem retrato e sem bilhetes, sem luar e sem violão."

A família do sambista era da classe média e, como até hoje, a classe média passava por grandes problemas financeiros. Mesmo assim Noel estudava no tradicional Colégio São Bento e entrou para a Faculdade de Medicina, curso que abandonou para viver na boemia e atuar na vida artística.

Desfeito o Bando dos Tangarás ao qual pertencia, Noel foi convidado por Francisco Alves a integrar um grupo para fazer uma grande excursão pelo sul do Brasil. Os Ases do Samba era formado por Peri Cunha (bandolim), Nonô (piano), Mário Reis, Francisco Alves e Noel Rosa. Chico Alves com seu vozeirão, Mario Reis com a sua clássica doçura e Noel, que tocava um violão básico, tinha uma pequena voz, mas que se destacava por ser carismático, alegre e com muito ritmo no seu jeito particular de cantar.

Nesta excursão aconteceu um fato interessante. Francisco Alves, o líder, exigia que todos se apresentassem em traje a rigor, que Noel detestava. Em Porto Alegre ele saiu com seu terno branco e não apareceu na hora do show. O público apupava e o espetáculo começou sem Noel. No final a plateia aplaudia, mas não arredava pé, esperando por ele, que chegou propositalmente atrasado, um tanto embriagado e todo sujo. Chico Alves ficou possesso: "Que papelão, hein, seu malandro irresponsável!" Mario Reis falou: "Mete ele no palco assim mesmo. Não dá mais tempo de tomar banho." Noel entrou meio cambaleante, o povo riu, mas ele se impôs. Quando cantou o Gago Apaixonado, foi um sucesso estrondoso. Todos voltaram para o número final com seus trajes pretos e Noel de branco. A partir daí ele nunca mais usou o smoking.

Todo mundo admirava o Poeta da Vila, ninguém se furtava a sua companhia, mas também falavam mal dele: "Só vive metido com mulher da vida e vagabundo." "Não sei o que ele vai fazer nos subúrbios. Coisa boa não pode ser." "Prefere as tendinhas do Estácio e da Mangueira aos bares da Galeria Cruzeiro e do Café Nice." "Só gosta de pé sujo. Nunca vai na Confeitaria Colombo."

Noel fez uma bela crítica a seus críticos com o samba Filosofia: "O mundo me condena e ninguém tem pena/ Falando sempre mal do meu nome/ Deixando de saber se eu vou morrer de sede ou se vou morrer de fome."

Neste ano de 2010 muito se falou sobre o Poeta da Vila, mas ele é tão grande que sempre há algo a acrescentar. Concordo com tudo que Cartola disse no samba, ainda inédito, Cadeira Vazia: "Eu quisera esquecer o passado/ Eu quisera mais sou obrigado / A lembrar do velho Noel/ Velho Noel/ Ainda resta a cadeira vazia/ Na Escola de Filosofia/ Do Bairro de Vila Isabel."

Noel nasceu em 1910, assim como Nássara, Custódio Mesquita, Haroldo Lobo, Luiz Barbosa, Claudionor Cruz, Manezinho Araújo, Vadico e Adoniran Barbosa, mas este espaço de 12 meses ficou conhecido como o Ano Noel Rosa porque ele "transformou o samba neste feitiço decente que prende a gente" e além das suas músicas atuais até o tempo atual, criadas em cerca de 7 anos dos seus vinte e sete de vida, Noel foi um baluarte na luta contra preconceitos: o social, andando pelos subúrbio, subindo morros; o musical, que havia contra cantores músicos populares, empunhando o violão e cantando no rádio; o racial, fazendo parcerias com compositores negros (Alcebíades Barcelos, Armando Marçal, Zé Pretinho, Brancura, Heitor dos Prazeres, Cartola, Donga, Ismael Silva) e até o sexual, porque tinha amigos gays e dedicou o samba Mulato Bamba ao lendário Madame Satã.

O gênio foi muito homenageado no seu centenário, mas o maior laurel foi feito pela nossa Escola, com o enredo Noel - A Presença do Poeta, cantando o samba que fiz, creio, iluminado pelo seu espírito: "Se um dia na orgia me chamassem/E com saudades perguntassem por onde anda Noel/Com toda minha fé responderia/Vaga na noite e no dia/Vive na terra e no céu..." Que pena Noel ter descansado tão cedo! Certamente seríamos parceiros em alguns sambas de enredo para a Unidos de Vila Isabel, escola do bairro onde não nasci, mas do qual, em artes, herdei o nome.

 

 

 

Tudo o que sabemos sobre:
Caderno 2Noel RosaEspecial100 Anos

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.