Um toque humano na música eletrônica

Recuperar os anos 80 para os dias atuais requer todo um aparato, entre roupas, música e atitude. Há 20 anos, o mundo vivia na época a era yuppie. Inspirado nessa atmosfera, o DJ Hell criou em Munique há quatro anos o selo International Gigolo Records. O som que compõe o time de mais de 50 artistas do selo está todo calcado na mesma proposta: recuperar não só a tecnologia empregada pelos produtores musicais da época, como também a atitude e o figurino. Não deu outra: pouco a pouco, os clubes europeus foram seduzidos pela nova proposta eletrônica, mesmo sem saber direito como denominar o fenômeno - synthcore, electro-punk, new disco etc. Em meio a essa confusão de nomenclatura, nomes como Miss Kittin, Felix da Housecat e Tiga saíram do anonimato direto para o topo das paradas de dance music da Europa, e atingiram cachês altíssimos. A dupla Fischerspooner (outra do Gigolo), por exemplo, acaba de assinar contrato com o megaclub inglês Ministry of Sound, por 1 milhão de libras esterlinas. Em janeiro, o DJ Hell montou set aqui em São Paulo e seduziu também o underground paulistano. De lá para cá, foram surgindo os novos projetos de electro-retrô: Elektra City, no Orbital, Classic, na Lôca, Electroshock, no Superclub, Transition no Pix e Electroklash, no Susi In Transe. E mesmo projetos mais antigos, como o Cio 80s de Gláucia ++, estão introduzindo faixas do "novo" estilo. O DJ Oscar Bueno é um dos nomes envolvidos. Com carreira relativamente curta (começou a tocar em 2000), já discoteca no Orbital, na terça, quarta no Cio 80s, e quinta na Lôca. "Fiquei aficionado por esse ritmo", confessa. "Estava tudo muito bonitinho: ou era deep house, ou tecnera quebrada." Bueno se diz fã incondicional do selo do DJ Hell e Miss Kittin. "Tem aquele lado que está mais próximo do rock. É o meio termo da e-music. E não estou sozinho nessa, tem muito produtor de tecno introduzindo elementos do synthcore nos seus sets." Mesmo assim, o som não agrada a todos. O DJ C1, que lança hoje seu CD Shifting Gears pelo selo Intec, de Carl Cox, no Lov.e, acredita que o gênero é mais uma tendência que a mídia inglesa está tentando criar. "A maioria do que está sendo feito hoje nessa praia é lixo." Mas alguns fãs mais tradicionais dos sintetizadores analógicos, como Flavio Oliveira, do Gotham, aprovam as novas produções. "A música eletrônica nunca teve voz. E as pessoas cansaram, e agora querem ver o lado humano nesse tipo de som."

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