Monica Zaratini
Monica Zaratini

Um Tom Jobim que quase ninguém viu

Os tensos bastidores da gravação de 'Elis & Tom' e a última apresentação do maestro estão nas mãos de Roberto de Oliveira

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

06 Dezembro 2014 | 16h00

A arca será aberta por Roberto de Oliveira. O homem que dirigiu programas e especiais para a TV Bandeirantes, vice-presidente da emissora de 2000 a 2005, protagonista em momentos históricos da música brasileira, esperou a safra das efemérides passar para não dividir a notícia com nenhuma outra da mesma origem que pudesse ofuscá-lo. Agora, estuda colocar na praça, em 2015, preciosidades em áudio e vídeo de Tom Jobim, muitas inéditas e outras vistas e ouvidas apenas em pequenas partes desmembradas no YouTube.

Oliveira foi um dos homens que esteve à frente do projeto Elis e Tom, de 1974, que resultaria em um dos mais importantes álbuns da história da fonografia brasileira. O disco saiu há 40 anos, mas as quase cinco horas de filmagens dirigidas por ele, não. Apenas um especial de pouco mais de 30 minutos foi exibido pela Bandeirantes, com trechos que também podem ser encontrados na internet. Como filhos desse trabalho, há ainda o áudio de dois shows feitos no Brasil para o lançamento do álbum, um no Hotel Nacional, do Rio de Janeiro, e outro no Teatro Bandeirantes, de São Paulo. Apesar das complicações na liberação de direitos autorais, o produtor pensa em lançar este material junto com o vídeo dos bastidores de Elis e Tom.

Há nas mãos do diretor ainda um terceiro item de potencial extraordinário. No primeiro semestre de 1994, Roberto ligou para Tom, propondo que ele gravasse um especial para a Bandeirantes ao lado de Milton Nascimento. Os dois seriam acompanhados pelo baterista Robertinho Silva, o percussionista Ronaldo Silva e o violoncelista Marcio Mallard. Tom tocaria piano e seu filho, Paulo, violão. O repertório teria músicas como 'Samba do Avião', de Jobim, 'Vera Cruz', de Milton e Marcio Borges, e 'Olha Maria', de Chico Buarque. As gravações seriam feitas no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro.

Às vésperas da gravação, Roberto ligou para Tom e sentiu o maestro inseguro, tenso, querendo adiar o projeto. "Ele tinha de fazer uma cirurgia nos Estados Unidos e estava com medo daquilo, parecia estar com alguma má impressão", recorda o diretor. Tom havia sido diagnosticado com um tumor na bexiga, algo que havia lhe tirado o chão. Sua ideia era deixar o encontro com Milton para depois da cirurgia, mas foi convencido por Roberto a fazer o encontro. O especial foi gravado pelos artistas, conforme idealizou o diretor. Dias depois da gravação, Tom embarcou para o hospital Mount Sinai, em Nova York. Algumas horas depois da intervenção cirúrgica, Tom começou a passar mal, sem conseguir respirar direito. Um coágulo sanguíneo parou em seu pulmão e acabou com as chances de comemoração pela retirada do tumor. Tom Jobim morreu. O material gravado por Roberto se tornou histórico. "Foi sua última gravação", diz o diretor. É outro item que ele quer colocar na praça. 

Vinte anos antes, em 1974, Roberto já havia testemunhado a história passar diante de seus olhos quando formou uma equipe de profissionais para registrar os bastidores de Elis & Tom. O álbum seria uma comemoração pelos 10 anos de Elis como contratada da gravadora Philips (só faltou a conta fechar, já que em 1964 Elis chegava ao Rio e só seria contratada pela empresa em 1965). Um dos nomes sugeridos por Roberto foi o de Tom Jobim, que já havia tido Águas de Março gravada por Elis no álbum de 1972. Andre Midani, presidente da gravadora, autorizou o investimento e a empresa montou uma operação para a gravação do disco entre 22 de fevereiro e 9 de março no MGM Studios, em Los Angeles.

Roberto queria registrar tudo. Contratou uma equipe de feras, entre eles o norte-americano Christopher Gray e os brasileiros Jom Tob Azulay, produtor, e Fernando Duarte, diretor de fotografia que havia trabalhado com longas no Cinema Novo. Ainda antes de chegar aos Estados Unidos, Roberto pediu para que fossem feitas imagens da chegada aos Estados Unidos de Elis e de seu marido e arranjador Cesar Camargo Mariano. A maior parte do material filmado, no entanto, mostra técnicos, músicos e os próprios Elis, Tom e Cesar ouvindo canções que haviam acabado de gravar. Há momentos em que Elis discorda de algumas partes e tenta convencer o maestro de que quer regravar trechos. Nas entrelinhas, há uma tensão residual dos primeiros dias em que Tom ainda tentava se acostumar ao fato de ver suas músicas colocadas nas mãos de Cesar Camargo Mariano, alguém que ele conhecia muito pouco, e tocadas por contrabaixo, guitarra e teclados. "Mas a conta do estúdio vai ficar uma fortuna", dizia, disparando a flecha.

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