Um show contra a patrulha ideológica

m 1977, Caetano voltava de Lagos, Nigéria, onde havia participado do Festival de Arte e Cultura Negra. Chegava ao Brasil interessado na aproximação da sua música com o funk suburbano - Gil teria a mesma vontade e faria o disco Refavela - e encontrou a melhor tradução do que pensava quando se juntou à Banda Black Rio. Comandado pelo saxofonista Oberdan Magalhães (ex-integrante da banda Abolição, de Dom Salvador), o hepteto havia sido elogiado pelo jornalista Nelson Motta e pelo músico Paulo Moura e fazia sucesso na época ao misturar samba com ritmos negros norte-americanos. A idéia parecia original e o grupo conseguiu até emplacar uma música na trilha sonora de uma novela da Globo. Síntese dessa nova fase de Caetano é Odara (que em nagô quer dizer "estar bem"), canção incluída no repertório de Bicho, que abre o show gravado com a Black Rio e que rendeu a Caetano a patrulha de setores mais ideologizados, que cobravam dele uma participação política mais efetiva. Além do manifesto Odara, o CD Bicho Baile Show traz outras canções retiradas do repertório do Bicho original (Tigresa, Gentee Two Naira Fifty Kobo) e músicas mais antigas (Alegria, Alegria, London, London, Qualquer Coisa e o o frevo carnavalesco Chuva, Suor e Cerveja) que misturavam ao repertório original da Black Rio (Maria Fumaça e Leblon Via Vaz Lobo). Bicho Baile Show acabou sendo mal recebido. "A crítica achava que dançar era alienação. O show só foi apresentado no Rio de Janeiro e em São Paulo e o disco, gravado ao vivo, ficou todo este tempo guardado nos arquivos. Foi o Charles Gavin quem descobriu", conta Caetano, que nem sequer sabia do registro sonoro do show.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.