Um samba de Sandra de Sá para Elza

Um samba de Sandra de Sá para Elza

Cantora fará homenagem a Elza Soares no carnaval do Rio, em 2020, com canção que compôs para a Mocidade Independente

Rafael Moraes Moura, O Estado de S. Paulo

23 de setembro de 2019 | 19h20


“É samba que corre na veia...” Elza Soares e Sandra de Sá vão somar forças no próximo carnaval. Pela primeira vez, uma cantora influente da MPB reverencia em samba-enredo uma diva da nossa música em plena Marquês de Sapucaí. Isso porque a Mocidade Independente vai homenagear em 2020 Elza Deusa Soares (esse é o título do enredo) e escolheu uma obra assinada por Sandra para ser a trilha sonora do desfile. “Essa nega tem poder”, diz a letra sobre Elza.

“É maravilhoso isso, duas negas com poder”, diz ao Estado Elza Soares, no intervalo de uma sessão de fisioterapia, enquanto se dedica aos preparativos do show no Rock in Rio, que inicia a turnê do novo álbum (Planeta Fome). “É um samba igual à minha vida, ainda mais que está falando a verdade. Toca fundo na alma.”

A Mocidade levará para a Avenida um hino de força, luta e resistência, que reflete a personalidade de Elza: descreve as feridas que marcaram a trajetória da artista desde o início da vida (“lá vai menina, lata d’água na cabeça…”), destaca sua postura combativa (“é a sua voz que amordaça a opressão”) e convoca o País a se mexer (“Brasil, enfrenta o mal que te consome”).

 


Para escolher o samba, a Mocidade promoveu uma competição dentro da ala de compositores – Sandra de Sá se tornou no domingo retrasado a primeira mulher a vencer uma disputa em 63 anos de agremiação. “Essa parada de Elza mexe com a gente, em termos de reflexão, de dignidade, de não abrir mão de si próprio”, afirma Sandra à reportagem, enquanto descansa em casa da ressaca da vitória.

Foi ali na casa de Sandra, no bairro de Vargem Pequena (zona oeste do Rio), que ela e os demais compositores se reuniram para criar a obra, noite adentro. “A galera já chegou com o cavaquinho, todo mundo tinha visto a sinopse (um resumo das principais ideias do desfile), aí vem com alguns pedacinhos, às vezes cantava uma frase. ‘Vamos mudar essa frase’, ‘e a melodia, vamos descer ou subir?’”, descreve a cantora.

Sandra lembra que, durante a infância, era praticamente proibido falar em Elza Soares. “Havia aquela cultura de que mulher deve ser submissa. E Elza nunca foi de ‘movimento de não sei o quê’, ela não levantava bandeira, ela é a bandeira, personifica todas as lutas”, conta. Elza também foi pioneira: em 1973, foi puxadora de samba da verde e branco de Padre Miguel. No último ano no carro de som, em 1977, a ex-porta-bandeira Remba lhe acusou de atravessar o samba. “Eu desci do carro e queria sair na porrada, né? ‘Tá louca, diabo?’”, relembra Elza.

A homenageada ainda não se encontrou com Sandra depois da escolha do samba. Mas enviou para a colega um áudio de WhatsApp, obtido pelo Estado, em que diz: “Oi Sandra, ganhou o melhor, parabéns. O samba é lindo. Muito obrigada, viu? Até o carnaval, se Deus quiser.”

 


Para o pesquisador de MPB, historiador e jornalista Ricardo Cravo Albin, a justiça da homenagem da Mocidade “é comovedora, talvez até tardia”, já que Elza sempre foi do samba. “Há de ser um belo início dessa conjunção feliz de duas mulheres extraordinárias. Ambas de escolas diferentes da música popular – Elza é icônica a partir do samba tradicional, começou com Lupicínio Rodrigues (autor de Se acaso você chegasse), e Sandra de Sá de uma outra escola, diferente, e ambas agora se intercambiam de uma maneira perfeita.”


Segredo

Com a definição do samba, os olhos se voltam agora para o desfile da Mocidade, que amargou um sexto lugar no último carnaval. Segundo o Estado apurou, a escola prepara uma forma inédita de colocar Elza para assistir e desfilar, tudo ao mesmo tempo, do início ao fim da apresentação. “Segredo é segredo, não sei nada”, desconversa Elza. Já Sandra deve estar ao lado do carro de som, reforçando o time de cantores liderado pelo intérprete Wander Pires.



A bateria virá fantasiada de Mestre André, o lendário mestre de bateria que inventou as paradinhas e deu fama aos ritmistas de Padre Miguel, eternizados na voz de Elza com o samba-exaltação Salve a Mocidade. Um dos episódios mais emblemáticos da carreira da cantora, a sua participação no programa de calouros de Ary Barroso, vai ser lembrado já no abre-alas. “De qual planeta você veio?”, questionou Ary ao deparar com a jovem menina magricela no auditório. “Eu vim do planeta fome”, lhe respondeu Elza.

Elza Deusa Soares forma a tríade “negra de resistência” do carnaval carioca de 2020, ao lado dos enredos da Grande Rio (que presta tributo a Joãozinho da Gomeia, conhecido como o “rei do candomblé”) e do Salgueiro, cujo enredo é Benjamin de Oliveira, o primeiro palhaço negro do País. Um ano que promete ser politizado, marcado por discursos contra racismo, machismo e intolerância religiosa – e no qual as escolas terão de superar a falta de verba. O prefeito do Rio, Marcelo Crivella, já avisou que não vai dar nenhum centavo para o evento.

“A gente está sendo desrespeitado, ou por ignorância ou por debilidade de inteligência, falta de compreensão”, critica Sandra, lembrando os milhares de empregos e a movimentação da economia pela festa.

Para Elza, o Brasil está gripado e o povo, apático. No álbum Planeta Fome, a homenageada da Mocidade avisa: “Eu não vou sucumbir!”. “Espero que o Brasil também não se deixe sucumbir”, diz ela. Há versões conflitantes sobre a idade de Elza, mas fontes ouvidas pela reportagem garantem que a artista completa 90 anos em 2020. Nascida em 1930 ou 1937, não importa: Elza é atemporal e tem a idade que quer – mais do que nunca, o País precisa da ‘deusa da Vila Vintém’.

 

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