Lidio Parente/Divulgação
Lidio Parente/Divulgação

Um passo para a eternidade

Moacir Santos ganha homenagem e começa a chegar onde merece estar

Julio Maria - Recife , O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2013 | 19h43

Não havia muito mais a ser dito naquela manhã sobre teorias e ensinamentos de Moacir Santos quando uma garota de 25 anos pediu a palavra. A voz saía trêmula naquela explosão de emoções que pareciam estar ali por um século. “Sou bailarina e vocês mudaram minha vida, desde aquele show que fizeram em São Paulo”, dizia, olhando para os músicos Mario Adnet e Zé Nogueira. “Conheci Moacir Santos graças a vocês e agora vou montar um espetáculo de dança só com músicas dele.” Bianca Morena foi só o primeiro dominó a cair. As pessoas que até então se seguravam diante de uma mesa de especialistas em Moacir Santos pediam o microfone para quebrar o protocolo e fazer uma inesperada e comovente sessão de testemunhos. Choravam ao contar histórias que viveram ao lado do maestro.

Uma espécie de intensivo Moacir Santos se deu no Teatro Santa Isabel, no Recife, sexta e sábado, em duas manhãs de mesas redondas, duas noites de shows e 55 temas de Moacir tocados por 51 músicos do Brasil e dos Estados Unidos, experiência inédita desde a morte do músico, em julho de 2006. Criado pela flautista e produtora Andrea Ernest Dias, que conseguiu patrocínio do BNDES para erguer o projeto de revalorização mais importante com relação à obra do maestro desde o lançamento de Ouro Negro, álbum de 2001, o Festival Moacir Santos ganhou dimensões históricas ao revelar temas e passagens desconhecidas de um dos maiores nomes da composição brasileira. Dias em que Moacir foi detalhado em quatro dimensões, colocado sob arranjos e linguagens diferentes que reforçaram a universalidade de sua obra e um mistério que o faz ainda sombra do monumento que deve ser em seu País quando de fato for descoberto.

Nas mãos do pianista californiano Mark Levine e seu quinteto, Moacir foi colocado nos padrões do jazz californiano com o qual teve contato a partir de 1964, quando foi morar em Pasadena, nos EUA, e passou a rever sua forma de escrever levando em conta os traços dos músicos norte-americanos. “O principal objetivo da minha vida é divulgar a obra de Moacir”, disse Levine. Seus arranjos de Coisa N° 10 levam ao limite suas intenções em valorizar o acento afro nas divisões do maestro, que retornam em outros momentos sobretudo na percussão de Michaelle Goerlitz. “A música dele é africana”, gosta de repetir. Na segunda parte da noite, a Banda Ouro Negro, projeto que desde 2001 divulga a obra de Moacir, fez a mais impactante apresentação do festival, com 18 temas arranjados por Adnet e Nogueira, que respeitam a formação de 15 músicos proposta por Moacir.

Sábado foi ocupado primeiro pelo Quarteto Coisas, formado especialmente para o festival, com o pianista Paulo Braga, o bandolinista Marco Cesar, a flautista Andrea Ernest Dias e o bandolinista Maurício Carrilho, mentor da proposta de ir aos choros pouco explorados de Moacir, como Flores e Não Há Dúvida, e compor uma série de obras ‘moacirsantosianas’ inspiradas em sua linguagem. Um passeio por um dos primeiros universos de Moacir, no qual começou a ter seus primeiros reconhecimentos. O festival terminou com a The Claire Fischer Big Band, orquestra de arranjos estonteantes assinados por Brent Fischer, filho do lendário arranjador Claire (morto em 2012). Suas reverências a Moacir Santos em temas como Coisa N°2 e em sua inédita adaptação de Coisa N° 8, que com sua nova divisão virou o tema Solidão, definiram a universalidade de uma obra que começa a chegar onde sempre mereceu estar.

Herdeiro foi militar nos EUA

Moacir Santos Junior está em paz consigo mesmo. Ele é um homem de 62 anos, cabelos grisalhos e fala lenta, procurando sempre as melhores palavras em português que traduzam os pensamentos em inglês que lhe chegam primeiro graças às mais de duas décadas em que vive em Pasadena, nos Estados Unidos. Nasceu no Rio de Janeiro e, aos 18 anos, seguiu com o pai e a mãe, Cleonice, na condição de filho único para viver no exterior.

Sua presença como convidado ilustre no festival que homenageou seu pai no Recife não é só figurativa. Moacir Junior teve de provar primeiro que poderia ter uma vida longe das generosidades lhe desfrutava por ser filho de quem é. Como forma de provar a si que poderia ser mais do que o herdeiro de Moacir Santos, se alistou no exército norte-americano e saiu em missões pelo mundo.

“Quando eu tinha 12, 13 anos, meu pai me deu aulas de piano, mas eu só queria saber de jogar futebol”, lembra. Sua carreira militar, que incluiu missões estratégicas das forças armadas dos EUA em países da Ásia e América Central, durou 21 anos, até que se aposentou como primeiro sargento. Voltou então para casa e passou a trabalhar em um hospital até o dia em que começou a retribuir o que o velho havia lhe dado. Moacir Santos teve um AVC e seu filho passou a cuidar de sua recuperação. “Foi uma alegria quando retomou os movimentos. Uma vitória minha e dele.” Esteve ao lado de Moacir até que ele morreu, em 2006, em decorrência de um câncer. “Eu pude cuidar de meu pai, nada paga isso. E hoje só quero agradecer a todos pelo carinho que tiveram comigo quando ele morreu.”

O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DO FESTIVAL.

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