Um livro sobre os grandes festivais

O segundo Festival da Música Popular Brasileira, organizado pela TV Record, em 1965, terminou empatado: primeiro lugar compartilhado pela toada caipira Disparada, de Théo de Barros e Geraldo Vandré, interpretada por Jair Rodrigues, e pela marchinha A Banda, de Chico Buarque, defendida pelo autor, a duas vozes com Nara Leão. Isso é fato muito bem-sabido. Não-sabido é que o júri havia premiado A Banda: sete votos contra cinco para Disparada. O vencedor foi informado da vitória nos bastidores. Achava que Disparada era melhor do que sua composição. Foi até Paulinho Machado de Carvalho, diretor da Record, e disse a ele: "Olhe aqui, não deixa eu ganhar de Disparada. Eu não posso ganhar esse prêmio sozinho." Paulinho Carvalho lembrou-lhe que o júri era soberano, mas Chico foi firme: "Se A Banda for premiada, eu devolvo o prêmio em público." O impasse foi resolvido com nova reunião do júri e a decisão pelo empate. As fichas com as notas dos jurados foram guardadas num envelope, entregue por Paulinho Carvalho ao seu assessor, e também técnico de som da emissora, Zuza Homem de Mello, com a instrução de que fosse guardado num cofre e escondido sempre. Zuza Homem de Mello conta esse e outros episódios de bastidores em A Era dos Festivais - Uma Parábola, lançamento da Editora 34 (528 págs., R$ 54,00), no qual Zuza procura estabelecer ligações entre a estética da música popular do período que examina - de 1960 a 1972 - com os acontecimentos políticos da época: a canção popular como ato de resistência ao regime militar e o fim da era dos festivais com o recrudescimento da ditadura.

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