Foto do maestro Eiji Oue, que se apresenta na Sala São Paulo com a Orquestra de Bolsistas do Festival de Campos do Jordão Crédito: Divulgação
Foto do maestro Eiji Oue, que se apresenta na Sala São Paulo com a Orquestra de Bolsistas do Festival de Campos do Jordão Crédito: Divulgação

Um dia com o maestro japonês Eiji Oue

Ele ensaia orquestra de bolsistas que se apresenta neste fim de semana

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado de S. Paulo

25 Julho 2015 | 10h00

“O que quer dizer essa passagem? Qual o estado de espírito de Beethoven?”, pergunta o maestro e professor. O aluno para, olha para os colegas, responde sem muita convicção: “Felicidade?”. “Ha! Felicidade! Sim, mas o que era a felicidade para Beethoven? Será que ele foi realmente feliz em algum momento da vida? A infância dele foi difícil, a vida adulta também. Ele não experimentou a felicidade. Mas ele soube imaginá-la. Beethoven não tinha uma experiência, uma lembrança feliz para a qual fugir em momentos de dificuldade. Então, ele precisou inventá-la. Ele não está descrevendo a felicidade. Está criando uma versão do que imagina que ela seria.”

O dia começou cedo para o maestro japonês Eiji Oue e seis alunos do Festival de Inverno de Campos de Jordão. Passava um pouco das 10 da manhã de quinta e, em uma das salas da Estação Júlio Prestes, o brasileiro Eron Calabrezi, de 25 anos, ensaiava o segundo movimento da Quinta Sinfonia de Beethoven. Oue assumiu as aulas de regência do festival ao longo desta semana – e neste sábado, 25, no Auditório Claudio Santoro, e amanhã, 26, na Sala São Paulo, também rege a Orquestra do Festival, formada por alunos do evento. Sua aula é uma profusão de imagens e referências. “Vocês já leram Nietzsche? Era um chauvinista que amava a própria irmã, mas tinha coisas importantes a dizer”, afirma, ao corrigir um movimento das mãos do aluno. “Não! Beethoven nunca é uma aquarela, é sempre pintura a óleo, esqueçam disso e o resultado será desastroso!”, coloca mais adiante, agora para explicar a escolha de dinâmicas na hora de reger o compositor.

A batuta logo troca de mão e quem assume a regência, agora no terceiro movimento da sinfonia, é a argentina Silvana Peruglia, de 28 anos. Oue ouve e observa em silêncio, ao lado do piano. Mas logo se levanta. Corrige o gestual, cochicha algo no ouvido da maestrina. Senta mais uma vez. Mais música. E nova interrupção. O assunto agora é a música que emana do maestro, mas logo a conversa muda de figura. “Você conhece a história de Adão e Eva? Os três arcanjos? Caim? Abel? Lúcifer?”, ele pergunta – e responde, citando passagens do Velho Testamento. Minutos depois, a conclusão (sem que a relação com a Quinta de Beethoven, é verdade, fique bem clara). “Vocês precisam saber isso. Não dá para reger Bach, as cantatas, as missas, sem conhecer essa história.” 

“Aproveitem.” Pequena pausa para o almoço. E a tarde começa no palco da Sala São Paulo, onde Oue ensaia a Orquestra do Festival. Mahler, Sinfonia n.º 1. Ao lado da partitura, uma pequena cola: “Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, antes, depois”, ele lê, em português. A obra começa a soar, mas é rapidamente interrompida. E, direcionada às madeiras, uma palavra usada bastante pela manhã retorna: “Aproveitem”. “Aproveitem esse momento, saboreiem a linha melódica, não tenham pressa.” Para as trompas, um elogio: “I love you! I love you! I love you!”. Com as cordas, bastante exigência. “Vamos tocar bem devagar e baixo uma vez, assim ouviremos uns aos outros”. Outro momento de ternura. “Deixe-me dizer: estou feliz demais de estar aqui com vocês. Agora, adiante. Movimento dois: vamos dançar?”

Durante um breve intervalo, Oue recebe o Estado no camarim. O casaco preto deu lugar a uma camisa azul-marinho, com a gola adornada por duas claves de sol – e uma gravata azul e branca. Dia cheio, maestro? “A música nunca é uma ocupação. Não me sinto ocupado quando faço música. E não é diferente porque estou trabalhando com jovens. Isso é verdadeiramente especial! Sou mais velho que eles, certamente. Mas a sinfonia do Mahler foi escrita em 1912 e, perto dela, também sou um garoto! Jovem ou não, o músico é o fio condutor pelo qual passa o mundo espiritual do compositor.”

Isso ele diz ter aprendido com aquele que chama de seu grande mestre, Leonard Bernstein. Oue estudou com ele nos Estados Unidos – onde acabaria desenvolvendo boa parte de sua carreira, apesar de cargos importantes ocupados na Alemanha e também no Japão. “Eu adoro citações. Uma delas diz assim: aprenda com o passado, viva o hoje, ame o amanhã. O passar do tempo é fascinante. Esses músicos não tiveram a chance de conviver com grandes artistas do passado, mas eu tive. E, agora, passo essa experiência a eles.” Oue não para um só instante. “É muita energia, mas é pouca. Tenho que dar 200% do que tenho dentro de mim para eles. Se não der, falhei com eles, falhei com a música, falhei com Mahler. Cada nota tem um coração. Aliás, preciso lembrá-los disso”, diz, e se levanta para começar o caminho de volta ao palco.

ORQUESTRA DO FESTIVAL

Auditório Claudio Santoro. Av. Dr. Luís Arrobas Martins, 1.800; (12) 3662-2334. Sábado, 25, 20h30. Grátis. Sala São Paulo. Pça. Júlio Prestes, 16; 3367-9500. Amanhã, 11h. Grátis


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