Caio Duarte
Caio Duarte

Um arranjo luxuoso para composição de Mahler na Sala São Paulo

Percorso Ensemble interpreta a ‘Sinfonia n.º 1 – Titãs’ sob a regência de Ricardo Bologna

João Marcos Coelho, Especial para o Estadão

22 de outubro de 2021 | 20h00

Paixão é a palavra que melhor define o concerto do Percorso Ensemble, às 11 horas de hoje na Sala São Paulo. Paixão de um compositor pela obra de outro compositor, porque vão interpretar a Sinfonia n.º 1 – Titã, de Gustav Mahler, em arranjo para 16 músicos realizado por Klaus Simon. E paixão de um punhado de notáveis músicos que, liderados pelo regente Ricardo Bologna desde 2005, se juntam sem nenhum tipo de subvenção pública ou patrocínio com o objetivo de fazer música nova, contemporânea. 

Até o início do século passado, os arranjos, transcrições e reduções tinham uma função prática, utilitária. Concertos sinfônicos ou de grandes proporções eram raros. O frequentador de concertos só podia rememorar o que ouvira tocando reduções para piano ou pequenas formações. Com a invenção da reprodução fonográfica, foi-se a utilidade. Em compensação, veio uma aura de amor e paixão de músicos e compositores por obras de outros criadores musicais. 

O pianista e maestro alemão Klaus Simon, 63, vem fazendo, dos arranjos e reduções, uma marca em sua carreira recheada de gravações, várias delas com a Holst Sinfonietta, que fundou e dirige. Foca, sobretudo, no período das décadas finais do século 19 e início do 20. Nessa época, dirigiu suas atenções para os arranjos realizados entre 1918 e 1921 por Arnold Schoenberg e seus parceiros na sua célebre Sociedade de Execuções Musicais Privadas. Arranjos de obras sinfônicas de Bruckner e Schoenberg, entre outros, passando por Mahler. Em 2007, Simon aventurou-se neste domínio, assinando reduções camerísticas para duas sinfonias de Mahler: a quarta, que o Percorso interpretou em concerto no Sesc Bom Retiro, em outubro de 2017, comemorando seus 15 anos de existência. E agora, para uma nova comemoração, a da volta aos concertos presenciais após longo jejum, o grupo escolheu a Sinfonia n.º 1.

Embora não considere sacrilégio ou missão impossível tal tarefa, Simon admite que “a instrumentação única e as poderosas sonoridades” definem as sinfonias de Mahler. “Mas, quando a música é boa, funciona em formatos diferentes.” Nisso ele concorda com Busoni, um dos devotos desta arte tão específica, para quem “a notação, a escrita das composições, é antes de tudo um engenhoso expediente para capturar uma inspiração com o propósito de explorá-la posteriormente”. Busoni completa: “Mas a notação está para a inspiração assim como o retrato está para o modelo-vivo. Cabe ao intérprete resolver a rigidez dos signos e fazê-la retornar à emoção primitiva”.

No caso da Sinfonia n.º 1 – de instrumentação grandiosa, prevendo mais de uma centena de músicos –, a tarefa é particularmente difícil. Simon relembra a Sociedade de Execuções Musicais Privadas, que Schoenberg idealizou e liderou entre 1918 e 1921 em Viena. Naquele momento Erwin Stein fez reduções de sinfonias de Mahler e de vários outros compositores. “A ideia de Schoenberg era examinar a essência dessas obras. Com o tempo, algo semelhante a uma orquestração padrão emergiu: flauta, clarinete, às vezes oboé, harmônio, piano, quarteto de cordas e contrabaixo. Senti falta da trompa e do fagote especialmente. Como a orquestração original desta sinfonia tem uma estrutura orquestral maior do que a quarta sinfonia, aqui meu arranjo é levemente mais luxuoso, com um clarinete/clarone, uma segunda trompa e um trompete em si bemol”, conclui.

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