Duncan Elliott/The New York Times
Duncan Elliott/The New York Times

Um ano da sua vida: Quem quer um mestrado sobre os Beatles?

Curso teria como foco as mudanças de percepção sobre o grupo ao longo dos últimos 50 anos

Alex Marshall, The New York Times

06 de outubro de 2021 | 10h00

Na manhã de quarta-feira, quando um novo semestre começou, os alunos foram avidamente para as salas de aula da Universidade de Liverpool para começarem seus cursos de Arqueologia, Letras e Relações Internacionais.

Mas na sala de aula nº5 do Rendall Building desta universidade, um programa menos tradicional estava começando: um mestrado dedicado inteiramente aos Beatles.

“Como alguém começa um mestrado sobre os Beatles?” perguntou Holly Tessler, a acadêmica americana que fundou o curso, olhando para 11 ávidos estudantes. Um deles vestia uma camiseta da Yoko Ono; outro tinha um submarino amarelo tatuado no braço. “Eu achei que a única forma de começar era, realmente, com um pouco de música,” ela disse.

Então Tessler colocou para a turma o vídeo da música Penny Lane, o tributo dos Beatles a uma rua real em Liverpool, bem perto da sala de aula em que estavam.

O curso de um ano – “The Beatles: Music Industry and Heritage” – teria como foco as mudanças de percepção sobre o grupo ao longo dos últimos 50 anos e a forma com a qual as histórias da banda afetaram setores comerciais como a indústria fonográfica e o turismo, Tessler disse em uma entrevista antes da aula.

Para Liverpool, cidade natal da banda, a associação com os Beatles valia mais de US $110 milhões por ano, de acordo com um estudo de Mike Jones em 2014, outro professor do curso. Turistas fazem peregrinações a lugares da cidade que aparecem nas músicas da banda, visitam locais em que o grupo tocou – como o Cavern Club – e posam para fotos com estátuas dos integrantes. O impacto da banda sempre foi econômico e social tanto quanto musical, disse Tessler.

Ao longo do curso, os estudantes teriam que deixar de ser simplesmente fãs para começar a pensar sobre o grupo de novas perspectivas, ela acrescentou. “Ninguém quer ou precisa de uma formação onde as pessoas estão sentadas ouvindo e discutindo as letras de Rubber Soul, ela disse. “Isso você faz em um pub.”

Na aula de quarta-feira, que foi quase toda sobre Penny Lane, Tessler incentivou os estudantes a pensarem nos Beatles como uma “marca cultural”, usando os termos “teoria narrativa” e "transmidialidade''.

Então ela utilizou essas ideias em um evento recente ligado ao grupo. No ano passado, Tessler disse, as placas ao longo da Penny Lane foram apagadas conforme os protestos do Black Lives Matter espalharam-se por Liverpool. Havia uma crença antiga em Liverpool, ela explicou, de que essa rua recebeu seu nome por causa de James Penny, um mercador de escravos do século XVIII. (O International Slavery Museum da cidade citou Penny Lane em uma exibição interativa de nomes de rua associados à escravidão em 2007, mas agora diz que não há evidência de que a rua recebeu seu nome por causa do mercador de escravos)

“O que aconteceria se mudassem o nome para – não sei -  Smith Lane?” Tessler perguntou. Isso tiraria uma das principais atrações turísticas de Liverpool, ela disse: “Você não pode posar ao lado de uma placa que costumava ser Penny Lane.” O furor em torno do nome da rua mostrou como as histórias sobre os Beatles podem interagir com os debates contemporâneos e ter um impacto econômico, ela disse.  

Os 11 alunos do curso – três mulheres e oito homens, de 21 a 67 anos – disseram que eram obcecados pela banda há muito tempo. (Dois colocaram o nome de Jude em seus filhos, por causa de uma das músicas; outro tem um filho chamado George, por causa de George Harrison.)

Dale Roberts, 31, e Damion Ewing, 51, disseram que eram guias turísticos profissionais e esperavam que o curso os ajudasse a atrair clientes. “A indústria turística em Liverpool é feroz”, disse Robert.

Alexandra Mason, 21 anos, disse que havia se formado recentemente em Direito mas decidiu mudar de rumo quando ouviu sobre o curso. “Na verdade, nunca quis ser advogada,” ela disse. “Sempre quis fazer algo mais empolgante e criativo”. Ela acrescentou, “Na minha cabeça, fui do ridículo ao sublime,” mas disse que algumas pessoas podem pensar que ela fez o oposto.

Uma pós-graduação em Beatles é uma raridade, mas a banda vem sendo estudada em outros contextos há décadas. Stephen Bayley, um crítico de arquitetura que agora é professor honorário na Universidade de Liverpool, disse que quando era um aluno na década de 1960 na Quarry Bank High School, em Liverpool  – a alma mater de John Lennon – seu professor de Inglês ensinava letras do grupo ao lado da poesia de John Keats.

Em 1967, Bayley escreveu para Lennon pedindo ajuda para analisar músicas do álbum Sgt. Pepper 's Lonely Hearts Club Band. Bayley disse que Lennon “escreveu de volta basicamente dizendo, ‘Não dá para analisá-las.’”

Mas atualmente um número crescente de acadêmicos está fazendo exatamente isso. Tessler disse que pesquisadores de diversas disciplinas estavam escrevendo sobre os Beatles, muitos explorando perspectivas sobre a banda relacionadas à raça ou ao feminismo. No ano que vem, ela planeja começar uma revista de estudos acadêmicos sobre o grupo.

Tessler terminou a quarta-feira definindo os temas das outras aulas do semestre. Um programa que qualquer fã adoraria, incluindo viagens para a St. Peter 's Church, onde Lennon e McCartney se conheceram em 1967 e para Strawberry Field, o antigo abrigo de crianças que a banda imortalizou em uma música. As aulas cobririam momentos-chave na história da banda, incluindo uma participação ao vivo no programa de televisão The Ed Sullivan Show e o assassinato de Lennon em 1980, Tessler disse.

Então ela deu uma lista de leituras aos alunos, encabeçada por um livro chamado The Beatles in Context. "Alguma pergunta?", ela disse.“Qual seu álbum preferido dos Beatles?”, perguntou Dom Abba, 27, o aluno com  o submarino amarelo tatuado. Tessler corajosamente respondeu (“A versão americana de Rubber Soul”), depois esclareceu o que quis dizer: “Alguém tem alguma dúvida sobre o módulo?”

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