Último dia para ver o vôo da Butterfly

Finalmente, uma Butterfly que voa. E que nos leva juntos: na montagem da ópera mais celebrada de Puccini no Teatro Municipal de São Paulo, a soprano Eliane Coelho resgatou a mais desejada das gueixas com a autoridade, a presença e a voz de uma diva perfeita.Há muito tempo não se ouvia uma voz como a sua - redonda, apetitosa, suculenta e encorpada como um pêssego mergulhado em saquê. Quem tiver ouvido sua Butterfly e ainda não conseguir compreender como uma ópera pode ser uma experiência tão profundamente física - como as melhores experiências sempre são - deveria desistir de ouvir música. Raríssimas vezes entre nós houve uma Butterfly tão completa.Majestosa, oceânica e floral, a voz de Eliane Coelho pode se projetar como um sabre, uma nuvem de ópio ou um vulcão - sua capacidade de modulação é infinita e absolutamente perturbadora. Muitas vezes sua voz se recolhe em cristais de tamanha suavidade que seu registro parece flutuar, sobre a lânguida corrente orquestral de Puccini, suspenso por nada mais que um fio de seda: é como se sua voz pudesse desmaiar, entre notas próximas, e fizesse da música a melodia de um suspiro. Em seu dueto com Pinkerton, no final do primeiro ato, Eliane Coelho canta o mi natural da primeira sílaba de "quanti occhi fissi" com tanto cuidado que sua ressonância acaba estabelecendo um novo padrão para a delicadeza.A atuação de Eliane Coelho também é memorável - na cena em que ouve Sharpless ler a carta de Pinkerton, sua expressão sugere sucessivamente ansiedade, euforia, orgulho, paixão, suspeita, desalento e uma determinação gelada que antecipa, com as notas iniciais de "due cose potrei far", a violência convulsiva de seu gesto final. Sua interpretação torna a Butterfly de "um bel dí vedremo" uma personagem que é quase o oposto da Butterfly de "tu, tu, piccolo Iddio": se a primeira soa como a mais doce das promessas líricas, a segunda canta com a voz sombria, madura e desolada da aflição.Conto de fadas iluminado - Carla Camurati dirigiu Madama Butterfly com imaginação, respeito, e a saudável disposição de quem resolve encenar a grande ópera do desejo como um conto de fadas para meninas - um conto de fadas iluminado pela gorda lua cheia que se ergue sobre a casa de Butterfly e que dá a impressão de ter sido feita às vezes de papel, às vezes de seda japonesa, às vezes de marshmellow. O maestro Ira Levin ainda parece falar uma linguagem que a orquestra não compreende - cada movimento é fruto de um esforço exagerado demais, desencontrado e, o que é pior, relativamente inútil. A meio soprano Bernadett Wiedemann foi uma boa surpresa; Ron Peo interpretou Sharpless, como convém, com gravidade e bonomia; e pelo menos nas duas primeiras apresentações o tenor Andrej Lantsov foi substituído por Marcelo Vanucci. Foi uma sorte: assisti a Andrej Lantsov no ensaio geral, e sua atuação era um desastre. É certo que não devia estar bem, mas Marcelo Vanucci é bem mais seguro e seu Pinkerton muito mais convincente. O coro continua impecável - especialmente quando entoa em "bocca chiusa" uma das mais hipnóticas melodias da tradição lírica.Mas Madama Butterfly, na verdade, começa e termina em Eliana Coelho. Frente a uma voz como essa, não há muito o que dizer: eu honestamente acredito que qualquer crítico que respeite de verdade os princípios básicos de sua profissão deveria esquecer de vez todo aspecto técnico, musical ou histórico de Madama Butterfly e se concentrar seriamente numa carta de amor para Eliane Coelho. Ou, pelo menos, de agradecimento.Madama Butterfly - Obra em 3 atos de Giacomo Puccini. Libreto de Luigi Illica e Guiseppe Giacosa, baseado em texto de David Belasco. Com a Orquestra Sinfônica Municipal, Coral Lírico e os solistas Eliane Coelho, Bernadett Wiedemann, Andrej Lantsov e Ron Peo. Dir. e regência Ira Levin. Direção cênica: Carla Camurati. Hoje, às 20h30. Teatro Municipal (Praça Ramos de Azevedo, s/n.º. tel: 222-8698). Ingressos: de R$ 5 a R$ 60. Último dia.

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