Última noite do Festival da Globo

O Festival da Música Brasileira termina hoje com uma série de dilemas a serem resolvidos, caso haja mesmo uma próxima edição. Divulgada com o instigante slogan "uma chance para o talento", a iniciativa da Rede Globo em dar espaço para artistas desprezados por ela mesma por mais de 20 anos não satisfez as expectativas de nenhuma das partes envolvidas.Em meio aos 48 concorrentes, peneirados entre 24.190 inscritos, reinou a falta de originalidade. Tentativas mal-sucedidas de recriar estilos consagrados por medalhões em festivais dos anos 60 e 70 fizeram um contraponto com produções de forte apelo mercadológico, sintonizados com modismos atuais e prontos para consumo imediato.Uma outra vertente foi representada por artistas de nomes já consolidados. Zé Renato, José Carlos Costa Netto, Vicente Barreto, Walter Franco, Chico Cesar, Luiz Tatit, José Miguel Wisnik, Toninho Horta e Moacyr Luz surgiram como uma espécie de resistência. A fuga do lugar comum, no entanto, não foi bem-vinda. Com exceções de Tatit e Moacyr Luz, todos foram rejeitados pelo júri.O último violeiro - Por fim, tiveram espaço, ainda que reduzido, os defensores da tradição. Apenas o violeiro Bilora conseguiu furar um silencioso bloqueio imposto às manifestações folclóricas.Se para a empresa Globo o importante são números do Ibope e não a qualidade do que se coloca no ar, a audiência das eliminatórias foi outra decepção. Nas quatro noites, a média passou longe dos esperados 25 pontos. Depois de atingir 18 na primeira noite e 15 na segunda, o evento teve sua estrutura reformulada pela direção para tentar seduzir mais o telespectador.Os shows de artistas conhecidos, que eram realizados apenas no encerramento, passaram a ocorrer também na abertura. A estratégia não funcionou e a média da terceira etapa ficou nos 16 pontos. Novas modificações foram feitas para o último sábado. Além de uma atração de peso no início e outra no final, colocou-se uma apresentação conhecida no meio. Resultado: nada mais que 14 pontos de audiência.Sem pretensões Solano Ribeiro, nome conhecido de outros festivais e responsável pela nova empreitada, ao lado de Roberto Talma, reconhece que nem tudo correu conforme o esperado. "Estamos reaprendendo a fazer festivais e o público precisa reaprender a assisti-los." Sobre a qualidade das canções, suas considerações são as seguintes: "O conjunto (dos concorrentes) é muito interessante para o momento atual. Não podíamos pretender que depois de tanto tempo (sem festivais) tivéssemos trabalhos fantásticos."As inevitáveis comparações com os antigos concursos só pioram a situação da superprodução global. Ao contrário dos eventos anteriores, a emissora resolveu priorizar a transmissão e, por muitas vezes, ignorar o público presente no Credicard.Enquanto os telespectadores assistiam a comerciais e entrevistas de bastidores, a platéia permanecia sem saber o que ocorria. Já os músicos que se preparavam para cantar esperavam constrangidos no palco por um sinal da produção. Serginho Groisman, apresentador apenas para os telespectadores, só deu as caras no palco para anunciar os classificados.Com entrevistas entremeadas às canções, a Globo esforçou-se por criar um clima de competição vibrante que não existiu. O público, antes esquecido, passava a ser manipulado sempre que os repórteres apareciam para mostrar as torcidas organizadas. "A Globo fingia o tempo todo que havia uma vibração incontida, como se fosse uma final de Copa do Mundo, e isso é falso", lembra o compositor José Miguel Wisnik, que participou da segunda etapa com DNA.Para Ivan Lins, compositor e participante de festivais nos anos de 68, 69 e 70, "músicos, produtores e jurados estão tateando no escuro". Lins, convidado especial da terceira eliminatória, explica a ausência de revelações surpreendentes com uma teoria interessante: "Chegamos a um momento na música brasileira em que todo mundo se parece com alguma coisa. Por não haver novidades, as pessoas se agarram a suas referências mais conhecidas."

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