Uakti impressiona no Festival de Melbourne

O grupo brasileiro Uakti fascinou os australianos com sua mensagem de universalidade e a magia sedutora do herói dos índios Tukano, durante sua participação no Festival das Artes de Melbourne. Acompanhado de Artur Andrés Ribeiro e Claudio Luiz da Costa, Paulo Sérgio dos Santos disse na segunda-feira à EFE que o índio Uakti, segundo a lenda dos Tukano, do alto Rio Negro, era "um ser mitológico que tinha o corpo cheio de buracos. A circulação do vento produzia um som mágico e profundo que seduzia as mulheres". O trio participou na semana passada da obra Orion do americano Philip Glass, criada para a Olimpíada Cultural da Grécia em 2004. Neste fim de semana, foi a vez de o grupo realizar sua apresentação própria. Ambos os shows ocorreram dentro do Festival de Melbourne. Os músicos afirmaram terem ficado impressionados com a reação do público australiano, que recebeu com perplexidade e entusiasmo suas composições originais. A platéia presente à sala BMW Edge, onde ocorreu a apresentação, aplaudiu o som do grupo, muito próximo à música eletrônica. A banda brasileira, no entanto, utiliza instrumentos fabricados com canos de PVC, vidro, borracha e água. A criatividade do grupo, formado em 1978 e que acumula trabalhos com artistas como Paul Simon, Manhattan Transfer e Milton Nascimento, os leva a tocar o violão como um violoncelo, a soprar por um tubo de plástico como se fosse um trombone e a fazer soar uma marimba com peças de vidro, entre outras invenções. Os músicos começaram a tocar juntos na Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, até que seu colega Marco Antônio Guimarães propôs que experimentassem os instrumentos inovadores que desenhava e construía sob a influência do suíço Walter Smetak, um músico inventor de instrumentos que ensinou a ele o segredo da alquimia musical. "O processo de criação de nossa música começa com a invenção do instrumento por Marco Antônio, que tem uma capacidade incrível para transformar o que imagina em realidade", explicou Artur, para quem o grupo evoluiu desde o início do projeto. "Em um certo momento, Marco sentiu que os músicos tinham se apegado aos instrumentos. A partir daí, se criou uma relação completamente diferente", acrescentou. O Uakti gosta de se divertir com o que faz, mas também se envolve em projetos que alertam sobre o estado do mundo em que vivemos. Por isso, o grupo colaborou com o mestre minimalista Philip Glass na montagem de Orion, que coloca sobre o palco músicos de todas as partes do mundo. O didgeridoo australiano acompanha o cachimbo da china, o violino do Canadá, o kora e o nyanyar da Gâmbia, a cítara indiana e a percussão brasileira. A voz da grega Eleftheria Arvanitaki fechou o espetáculo de Glass, agraciado pelo público com demorados aplausos. Por trás do espetáculo de Glass, diz a banda, há uma filosofia muito forte que rompe a tendência de nosso mundo globalizado no qual as fronteiras estão abertas apenas para o comércio, mas não para as pessoas. "Um projeto utópico como este, que une pessoas de tantos lugares diferentes através da música para realizar algo em conjunto, é extraordinário", opinou Artur. O brasileiro acrescentou que um artista não pode ter a pretensão de mudar o mundo, mas pode ajudar o público a entender que todos estamos no mesmo barco, independentemente do lugar onde tenha nascido. Assim, o próximo projeto do Uakti é um programa educativo no Brasil com jovens carentes que quiserem entrar no mundo da música e da construção de instrumentos.

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