U2 não emociona, mas CD de Billy Bragg arrepia

How to Dismantle an Atomic Bomb, A despeito do título, o disco do U2 não é tão explicitamente político quanto as suas raízes, apesar de menções ao Oriente Médio (Love and Peace or Else e Yahweh), apesar de a mais potente música do disco (Vertigo) lembrar o Clash, banda favorita do guitarrista The Edge. Essa ausência de músicas de protesto não é um problema. O problema é a falta de emoção. Por mais que Bono Vox a afete, ela simplesmente não está em Ouça A New England, de Billy Bragg Ouça Vertigo, do U2A expressão ?rock político? pode sugerir ao desavisado a existência de um ?rock apolítico?. Ele não existe. Como qualquer outra forma de arte, musical ou não, o rock sempre é político, inclusive (talvez fosse o caso de dizer sobretudo) quando protesta não ser, quando passa ao largo de domingos sangrentos e de questões sindicais. O requebrar de pélvis de Elvis foi uma das declarações políticas mais importantes do século 20.Dois dos maiores expoentes do rock explicitamente político acabam de lançar discos no Brasil: o quarteto irlandês U2 (How to Dismantle an Atomic Bomb, Universal) e o trovador inglês Billy Bragg (The Essential Billy Bragg, Sum Records). Ambos são crias dos anos 80 do século passado, mas seus CDs são em quase tudo diferentes. Inclusive porque um é novo (talvez fosse o caso de escrever ?novo?), outro é coletânea de canções já conhecidas (talvez fosse o caso de escrever ?já conhecidas?). Até as tiragens nacionais traem-lhes as ambições: 25 mil a edição especial com DVD do U2, 1 mil o duplo de Bragg.A bandinha de escola de Dublin virou, em 24 anos de carreira fonográfica, uma superbanda de sucesso mundial, com turnês faraônicas, estádios cheios e elaboradas estratégias de marketing a cada lançamento. (Perto da economia de escala do U2, o REM nunca deixou de ser um grupinho alternativo do interior da Geórgia.) Bragg, em 21 anos de estrada em disco, também aumentou sua estrutura. Relativa. No começo, apresentava-se só com sua guitarra, depois foi aceitando outros músicos e, mais recentemente, trabalhou com grupos formalmente constituídos, como o americano Wilco e o seu próprio Blokes.Muito se tem dito que How to Dismantle an Atomic Bomb - repare que o título é explicitamente político - marca o retorno do U2 às suas raízes roqueiras, depois de flertes monumentais com a disco music e com a eletrônica. O próprio Bono, em entrevista no documentário de 20 minutos incluído (com cinco clipes) no DVD, afirma: ?Este é o nosso primeiro disco.? Clichê pouco é bobagem. Além do mais, não é verdade: se houve a tal volta ao básico, aconteceu no CD anterior, All That You Can?t Leave Behind, de 2000, muito superior ao presente lançamento. Como, porém, Bono também anda dizendo coisas como ?a liberdade é como o perfume no topo da cabeça de um bebê?, convém dar um desconto.Pouco, quase nada, se tem falado sobre The Essential Billy Bragg. O bardo nunca deixou, aqui ou alhures, a esfera do culto enturmadinho. Até por isso e por ser uma coletânea, o álbum duplo é mais representativo de seu trabalho do que How to Dismantle é do trabalho do U2. Embora não haja aqui uma única faixa de seu disco mais explicitamente político (The Internationale, de 1990, no qual, sim, ele cantava até uma nova versão em inglês para o velho hino comunista A Internacional), há uma penca de canções com títulos auto-explicativos: There?s Is a Power in a Union ou All Your Fascists Bound to Lose, por exemplo, esta da lavra de seu ídolo mor Woody Guthrie, o cantador folk americano que escavou a canivete a frase ?esta máquina mata fascistas? em seu violão.A despeito do título, o disco do U2 não é tão explicitamente político quanto as suas raízes, apesar de menções ao Oriente Médio (Love and Peace or Else e Yahweh), apesar de a mais potente música do disco (Vertigo) lembrar o Clash, banda favorita do guitarrista The Edge. Essa ausência de músicas de protesto não é um problema. O problema é a falta de emoção. Por mais que Bono Vox a afete, ela simplesmente não está em How to Dismantle an Atomic Bomb. Há, apenas, a busca de seu efeito, a necessidade de atingir o maior número de pessoas para sustentar a própria expectativa e estrutura.As duas baladonas do CD que mais se aproximam da emoção genuína têm razões bem específicas para isso: Sometimes You Can?t Make it on Your Own foi composta por Bono quando ficou claro que seu pai estava fadado a morrer de câncer; e Crumbs from Your Table foi, segundo depoimento dos próprios músicos no DVD, a primeira música do U2 composta num momento de bebedeira. Daí, talvez, sua espontaneidade. Com Vertigo, as duas são o melhor da safra. A banda passa recibo disso quando as escolhe para clipe(s). O resto não é ruim, impossível algo do U2 ser ruim, eu diria: o resto é irrelevante.Bragg leva vantagem nesta comparação circunstancial. Nenhuma das 40 faixas de The Essential Billy Bragg é irrelevante. Dos primeiros trabalhos, banquinho e guitarra, entram, entre outras, A New England (?Eu não estou buscando uma nova Inglaterra/ Eu só estou procurando uma nova garota?, mente o bardo) e a amorosa e lindíssima St. Swithin?s Day (?Os polaróides que nos mostram juntos/ Vão certamente esmaecer/ Como o amor que julgamos eterno/ No dia de São Swithin?). Da fase mais recente, grupal, entram a animadinha Sexuality e a recente e revoltadíssima Take down the Union Jack.Mesmo para os happy few mais ou menos familiarizados com a obra de Bragg, The Essential reserva boas surpresas. É o caso de Walk Away Renée, lado B do compacto com Levi Stubb?s Tears, ou de The Boy Done Good, parceria de Bragg com Johnny Marr, ex-guitarrista dos Smiths, também lançada fora de um álbum. Até quando não é lá muito essencial, isto é, quando sua voz empostada e sua guitarra básica dividem os microfones com outras fontes, o trovador do leste de Londres arrepia a sensibilidade do ouvinte individual, não necessariamente a da massa. Paradoxo curioso, não inédito.Em comum, além da certeza de que a música pode mudar o mundo, U2 e Billy Bragg têm ainda o apreço por hinos. No caso da banda, isso freqüentemente assume um sentido apenas figurado, conforme The Edge, o baixista Adam Clayton e o baterista Larry Mullen Jr. criam um púlpito sonoro para Bono entoar um Sunday Bloody Sunday. No do artista solo, esta afirmação é bem mais literal. Muito de seu trabalho tem influências diretas não só do rock e do folk, mas também dos hinos religiosos anglicanos. Between the Wars, por exemplo, evoca uma Jerusalém. Não é pouca coisa.P.S.: Não adianta procurar a música Fast Cars no CD do U2. Embora seu título conste da contracapa e sua letra esteja no encarte, a 12.ª faixa só faz parte das edições britânica e japonesa. A Universal promete corrigir o engano nas próximas tiragens, tanto da edição limitada (com DVD) quanto da simples (sem DVD).

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