Christophe Simon/AFP
Christophe Simon/AFP

Turnê israelense de Gil e Caetano tem ingressos quase esgotados

Rádios israelenses anunciam show de ‘Djilbertô Djil’ e ‘Caetana’, que não ligam para pedidos de boicote

Miriam Sanger - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

20 de junho de 2015 | 18h09

TEL-AVIV - Dois amigos, um Século de Música é o nome romântico da turnê internacional de Gilberto Gil e Caetano Veloso que, em 28 de julho, passa por Tel-Aviv. Com ingressos quase esgotados e campanhas simpáticas na TV e na internet, eles se apresentarão no estádio Menorá Mivtachim Arena - mais conhecido por seu nome anterior, Arena Nokia -, para um público de 6 mil pessoas. Nas rádios, os locutores locais lutam contra a pronúncia de ambos os nomes. Gilberto Gil vira “Djilbertô Djil” e Caetano torna-se “Caetana”, inclusive no texto da chamada da TV. Nomes brasileiros são verdadeiros trava-línguas na Terra Santa.

Essa passagem pelo Oriente Médio acontece justamente entre as apresentações de Gil e Caetano na Espanha e em Portugal, que recentemente ofereceram a cidadania a descendentes de judeus que foram expulsos pela Inquisição há 500 anos. Esse tema ganhou destaque na imprensa israelense, ao contrário dos pedidos de boicote orquestrados pelo ex-Pink Floyd Roger Waters, que tiveram pouca repercussão no país. 

Waters já está conhecido no meio musical como porta-voz do Movimento BDS (Boicote, Desenvestimento e Sanções), que realiza campanhas conduzidas por ativistas com o objetivo de pressionar Israel, política e economicamente, a interromper a ocupação de territórios em disputa e apoiar a criação de um Estado palestino. Vale a observação: o próprio Waters esteve em Israel em 2006 para realizar um show que reuniu 40 mil espectadores, que mais tarde foi descrito como “apoteótico”. Na imprensa, declarou que se apresentou em Newe Shalom por ser um “oásis da paz”. Esse fato foi citado nas poucas menções de seu pedido de boicote na mídia local.

Assunto principal. A única ansiedade que paira no ar vem da comunidade brasileira local, formada por cerca de 12 mil pessoas. O show é o principal assunto nos grupos de brasileiros nas redes sociais e nas rodas de amigos. Israelenses, antigos fãs da música brasileira, também estarão por lá. Os ingressos têm um valor acessível em se tratando de um evento internacional: custam entre 54 e 160 dólares. Os do show de Paul McCartney em 2013, por exemplo, chegavam a 250 dólares, assim como os de Art Garfunkel, que apresentou-se no último dia 10.

Israel e a música brasileira têm um caso de amor antigo. Já passaram pelo país artistas como Tom Jobim, Maria Bethânia, Gal Costa, Bebel Gilberto e Olodum. Roberto Carlos fez um show memorável em 2011, transmitido pela Rede Globo. As músicas de Daniela Mercury, que esteve em Israel em 2012 e é sempre lembrada carinhosamente pelos israelenses, costuma embalar as pistas de danças em todo o país. 

Em Israel, mensalmente realiza-se um festival de samba; além disso, o grupo Samba do Bom se apresenta constantemente para todos os públicos. Nos idos anos 70, pessoas de todo o país já desciam para o sul para ouvir chorinho no kibbutz Bror Chail, conhecido pelo grande número de moradores brasileiros. Um famoso músico israelense, Matti Caspi, traduziu e gravou uma longa discografia de MPB em hebraico. Todos os anos, a rádio 88 FM transmite 24 horas de samba durante o sábado de carnaval, além de apresentar especiais de música brasileira.

As cartas de Roger Waters obtiveram, no entanto, alguns resultados nos últimos anos. Em 2010, Carlos Santana cedeu à pressão pelo boicote e cancelou seu espetáculo em Tel-Aviv após o início da venda de ingressos. O mesmo aconteceu no último mês de maio, com a desistência de Lauryn Hill. Nessa semana, o arcebispo sul-africano e Nobel da Paz Desmond Tutu apresentou seu próprio pedido de boicote, enviando uma carta pessoal para Gil e Caetano. 

Carmit Hadida, assessora da produtora responsável pela vinda dos artistas, a 3A Productions, afirma que em nenhum momento os artistas mencionaram a possibilidade de cancelar a apresentação. “Acompanhamos a pressão do BDS, que não é produtiva para o cenário artístico e para a imagem de Israel. Mas não é um tema novo para ninguém por aqui. Está tudo caminhando como deveria”, declarou em entrevista para o Estado.

Segundo Carmit, o esquema de segurança do show será realizado seguindo os mesmos critérios de outras apresentações internacionais em Israel, com seguranças controlando a frente do palco, e checagem de bolsas e sistemas com detectores de metal nos acessos do estádio. “Não prevemos nenhum tipo de distúrbio. Tudo está sendo conduzido normalmente, como em qualquer evento internacional que acontece em Israel”, finaliza Carmit.

Shows internacionais. A comoção é comum quando chegam a Israel nomes expressivos do cenário musical internacional, o que acontece cada vez com mais frequência. Os israelenses lotam estádios e parques – shows são uma mania nacional. O próprio Gilberto Gil é um velho conhecido do público local. Apenas nos últimos quatro anos, fez cinco shows em Israel, todos com casa lotada. Gil chega com Caetano em um momento aquecido. Somente nesse ano, Suzanne Vega lotou por duas noites o Charles Bronfman Auditorium, tocando com a Orquestra Filarmônica de Israel; Robbie Williams fez sua estreia em solo israelense no Parque Ayarkon; Art Garfunkel tocou para uma plateia que lotou o Bloomfield Stadium. Depois de Gil e Caetano, chegará a hora de Bon Jovi, que se apresenta em Israel em 3 de outubro – a primeira passagem pelo país.

Tudo o que sabemos sobre:
Gilberto GilCaetano Veloso

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.