Sam Hodgson/The New York Times
Sam Hodgson/The New York Times

Trump e Kanye West compartilham tuítes elogiosos e, aparentemente, 'energia de dragão'

Entre manifestações políticas controversas e preocupação sobre sua saúde mental, o rapper está de volta ao Twitter

Katie Rogers e Joe Coscarelli, The New York Times

26 Abril 2018 | 11h36

WASHINGTON — Tão maluco quanto possa parecer — apesar de que neste mundo, esse é um parâmetro alto — o presidente escorregadio acusado de comentários racistas e o bombástico rapper acusado de apoiá-lo t^rm há tempos aparentado gostar da companhia um do outro.

O presidente dos EUA, Donald Trump, e o rapper Kanye West compartilham uma história de comportamento imprevisível — e um prazer em assustar e, talvez, dividir um público já dividido. Na quarta-feira, 25, West, criado em Chicago, e Trump, nascido em Nova York, juntaram forças novamente, desta vez no Twitter, quando o presidente agradeceu West por um elogio público, incluindo uma indicação de que os dois eram irmãos que dividiam uma “energia de dragão” (dragon energy).

Em uma série de tuítes que pareceu irritar e preocupar seus fãs, West tentou defender sua admiração pelo presidente da “máfia” de pessoas que “não podem me fazer não amá-lo”.

“Você não precisa concordar com Trump”, tuítou West. “Eu amo todo mundo. Eu não concordo com tudo que qualquer pessoa faz. É isso que nos faz indivíduos. E nós temos direito ao pensamento independente.”

West, que também postou uma foto de um boné “Make America Great Again” assinado por Trump, pareceu tentar deixar claro que ele pode respeitar um indivíduo mas não concordar inteiramente com ele ou ela.

“Eu amo a Hillary também”, ele escreveu em outra missiva, se referindo à candidata democrata na eleição de 2016, Hillary Clinton, que perdeu para Trump.

Mas os tuítes causaram comoção entre os fãs de West. Eles haviam começado a debater sua estabilidade mental no início do dia, depois que o rapper confirmou que havia demitido seu empresário e então chamou o presidente, que já fez uma série de comentários racialmente divisivos, de seu “irmão”.

Dado o contexto, a relação positiva que West tem com Trump é flagrante, particularmente porque West foi crítico sobre como antigos presidentes lidaram com as relações com afro-americanos.

West uma vez acusou o ex-presidente George W. Bush, na TV ao vivo, de não se importar com pessoas negras, e ele abertamente criticou Barack Obama, que repetidamente lhe chamou de “burro” (jackass).

Trump, que já usou linguagem vulgar para depreciar comunidades e países de maioria negra, não foi alvo das críticas de West.

Kanye aparenta há tempos ser fascinado com as possibilidades da plataforma presidencial: em 2015, ele pareceu gostar de provocar o público a acreditar que estava interessado em concorrer em 2020. E em dezembro de 2016, depois de ser hospitalizado por uma “emergência psiquiátrica”, West visitou Trump, então presidente eleito, na Trump Tower em Manhattan. Hope Hicks, porta-voz de Trump na época, disse que West havia solicitado a reunião.

Na quarta-feira, a Casa Branca não tinha mais detalhes sobre se os dois mantiveram contato regular desde então.

“Nós somos amigos por um longo tempo”, disse Trump naquela ocasião. Questionado sobre o que ele e West discutiram, Trump respondeu: “A vida. Nós falamos sobre a vida”.

Os laços entre os dois — e especulações sobre a saúde mental de West — aparentemente alarmaram sua esposa, Kim Kardashian West, que era uma apoiadora pública da campanha de Clinton e tem criticado abertamente a maneira de Trump lidar com grandes eventos, incluindo o furacão em Porto Rico.

De fato, após um pedido da esposa, West recuou nos elogios.

“Minha esposa acabou de me ligar e ela queria que eu esclarecesse isso para todo mundo”, ele tuítou. “Eu não concordo com tudo que Trump faz.”

Na quarta-feira, Kardashian West culpou a “mídia” por forçar a ideia de que seu marido estava doente por apoiar o presidente.

“Ele é um pensador livre, isso não é mais permitido nos EUA?”, escreveu Kardashian. “Porque algumas das ideias dele diferem das suas vocês têm que jogar a carta da doença mental? Isso apenas não é justo.”

Ainda assim, aqueles no círculo do rapper expressaram preocupação por seu bem estar porque a interação online de West com o presidente veio assim que ele reconheceu que demitiu seu empresário, Scooter Braun, e seus advogados, escrevendo no Twitter: “Eu não tenho mais um empresário. Eu não posso ser gerenciado”.

West trabalhava desde 2016 com Braun, a figura poderosa da indústria musical por trás de Justin Bieber e Ariana Grande. Apesar de ele não estar mais na equipe de West, a porta foi mantida aberta pelo rapper: “Eu gostaria que Scooter Braun fosse parte dessa nova plataforma que estamos criando”, West tuítou na tarde de quarta. “Scooter é um gênio.”

Braun não quis comentar.

No mês passado, West também demitiu outro membro da sua equipe de gerenciamento, Izvor Zivkovic, com quem ele trabalhava desde 2010.

“Não sou cliente de ninguém”, disse West na quarta-feira, explicando que havia dado aos seus associados a opção de trabalhar apenas com ele o tempo todo, ou que seriam demitidos. Respondendo aos relatos que denominavam seu comportamento como errático, West acrescentou: “Por favor, nunca usem a palavra errático para descrever uma pessoa que é empoderada econômica e psicologicamente”.

Howard E. King, um advogado que representou West nos dois últimos anos, disse: “Ele nos notificou que agradecia tudo que fizemos por ele e que ele estaria fazendo todo seu trabalho legal internamente”. King acrescentou que seu escritório continuaria a auxiliar West “de qualquer maneira que ele quiser”.

A recente enxurrada de atividades de West segue mais de um ano de silêncio público desde um episódio em novembro de 2016, quando ele foi hospitalizado. Logo antes, em uma turnê que logo seria cancelada, o rapper tinha começado a expressar afinidade por Trump, e quando ele reapareceu um mês depois, foi para encontrar o presidente eleito.

Sobre seu retorno este mês para o Twitter, West anunciou que planeja lançar dois álbuns em junho, além de pelo menos outros três lançamentos que ele estava produzindo para outros artistas.

Enquanto o público cambaleava com seus tuítes sobre o presidente, West praticava associação livre com outros tópicos, incluindo uma solicitação para encontrar Tim Cook, o diretor executivo da Apple, e seu desejo de ver uma “turnê com Nikki Minaj e Cardi B”, escrevendo errado o nome da primeira rapper.

O presidente, porém, se demorou no elogio de West.

“MAGA!”, Trump escreveu, retuítando de maneira orgulhosa a foto do boné autografado de West. / Tradução Guilherme Sobota

Mais conteúdo sobre:
Donald TrumpKanye West

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.