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'Tropicália', um álbum a ser estudado

Álbum foi escolhido 'leitura obrigatória' no vestibular da UFRGS

Renato Vieira, O Estado de S. Paulo

02 de abril de 2014 | 22h24

Não é muito difícil entender por quais motivos o álbum Tropicália ou Panis Et Circensis foi escolhido pela UFRGS para figurar entre suas “leituras obrigatórias” para o vestibular. É um disco que apresenta uma visão do que era o Brasil em 1968 em termos de arte, cotidiano e perspectivas. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes, Nara Leão, Gal Costa e Tom Zé, aliados aos arranjos de Rogério Duprat, interpretam músicas que permaneceram no cancioneiro popular não só por sua qualidade, mas pela ruptura com o que vigorava musicalmente no Brasil naquele momento. É item básico – e que merece ser estudado porque sua linguagem estética nunca envelhece.

Caetano e Gil já sentiam necessidade de dialogar com o mundo pop um ano antes do lançamento de Tropicália, quando defenderam, respectivamente, Alegria, Alegria e Domingo no Parque no Festival da Record. Ambos perceberam que a Jovem Guarda, considerada “menor” frente a “autêntica música brasileira”, era muito mais comunicativa do que as canções de protesto. Com a pretensão de fundir forma e conteúdo dentro de uma perspectiva que juntasse as características brasileiras e internacionais, conceberam o movimento que deu nome ao disco.

Ouça o álbum na íntegra

 

Os arranjos de Duprat, unindo a tradição erudita com o rock jovem da época, dão o suporte às cenas urbanas retratadas no disco. O assassinato em Panis Et Circenses; a industrialização e a falsidade do mercado de consumo em Parque Industrial; as maravilhas e contradições brasileiras de Geleia Geral; tudo isso ainda permanece. O trunfo de Caetano e Gil foi documentá-las em um momento que o Brasil solidificava a urbanização das cidades e sua consequência em um país subdesenvolvido.

Há ainda o resgate de Coração Materno, música lançada em 1950 por Vicente Celestino. No ano de 1968, ela era considerada tão velha quanto uma música do New Kids On The Block é hoje. Com a Bossa Nova, tudo o que tinha arroubos de drama na canção brasileira foi esquecido. A letra fala de um camponês que arranca o coração da própria mãe. Em 1968, ano de lançamento de filmes ousados como 2001 – Uma Odisseia no Espaço e O Bandido da Luz Vermelha, Coração Materno voltava a fazer sentido.

Tropicália tinha tudo para ficar datado. Mas não há admirador nem músico de MPB que não o cite como uma das principais referências da canção no país. É bom saber que ele será estudado, analisado, dissecado por uma parte de uma nova geração que talvez não tenha tomado contato com ele. E que vejam nos discos uma nova forma de aprendizado.

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