TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
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Trompetista Jun Miyake traz a São Paulo pela primeira vez o seu espetáculo transcendental

Nascido em Quioto, músico se apresenta neste domingo, dia 7, na plateia externa do Auditório Ibirapuera

João Paulo Carvalho, O Estado de S. Paulo

07 Maio 2017 | 03h00

O compositor e trompetista Jun Miyake, de 59 anos, tem um jeito peculiar de lidar com a música. Quem o vê falar de maneira tão serena, não pode imaginar o quão forte ele pode ser nos palcos. O compositor e trompetista é do tipo que carrega uma força descomunal dentro de si. O jeito contido de Miyake, portanto, é externado apenas na fala e no caminhar delicado. “É minha primeira vez em São Paulo. Já tive a oportunidade de visitar o Rio de Janeiro para uma gravação, há alguns anos. Faz dois dias que cheguei. Você, inclusive, pode me mostrar alguns números musicais daqui”, brinca o japonês em entrevista ao Estado em um estúdio que fica na zona sul da capital paulista. 

Nascido em Quioto, Miyake se apresenta neste domingo, dia 7, na plateia externa do Auditório Ibirapuera. O concerto, que também contará com a performance do pianista Ryuichi Sakamoto, celebra a abertura da Japan House São Paulo, novo espaço cultural localizada na Avenida Paulista.

O nome de Jun Miyake pode até parecer estranho para os mais desavisados. Quem, no entanto, assistiu atentamente ao documentário Pina, dirigido por Wim Wenders, lembra-se com clareza da trilha sonora do longa. O filme faz uma emocionante e sensível homenagem à coreógrafa alemã Pina Bausch, que virou diretora da companhia Tanztheater Wuppertal na década de 1970 e morreu em junho de 2009. A canção Lillies in the Valley, uma das principais da produção alemã, é de autoria de Miyake. “Acho que consegui explorar toda a minha sonoridade nessa composição. O jeito melancólico e ao mesmo tempo instigante do ritmo consegue chamar a atenção do público. Acredito que escutá-la significa ficar hipnotizado. Precisei de várias referências para compô-la, inclusive a bossa nova”, afirma ainda.

Miyake é mundialmente respeitado por sua capacidade de misturar elementos aparentemente díspares. Apaixonado por bossa nova desde a adolescência, ele conta que ficou encantando pela melodia do gênero criado por João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Segundo Miyake, nada é mais bonito na música do que o ritmo cadenciado do violão à brasileira. “Lembro da primeira vez que escutei os acordes de João Gilberto. Fiquei com a melodia na cabeça e jamais fui capaz de esquecê-la. Seu país, em termos musicais, é bastante heterogêneo. A bossa nova, por exemplo, não é uma referência direta, mas, sim, indireta para minha composição. Trabalho o tempo todo com músicas dos mais variados tipos. É preciso estar sempre ligado em tudo o que acontece”, revela. 

Jun Miyake trará ao Brasil o espetáculo The Here and After. Para sua primeira performance no País, ele contará com a participação dos artistas Kyoko Katsunuma, Lisa Papineau, Bruno Capinan, integrantes do Vozes Búlgaras, e um quarteto de cordas formado por músicos da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). “Os convidados foram escolhidos a dedo. Todos, de alguma forma, têm uma relação especial com a minha música e a sonoridade que faço. O Bruno (Capinan), por exemplo, foi um cara com que me identifiquei logo de cara. A música precisa ser entendida em um contexto geral. Ela é ampla e aberta a várias coisas”, ressalta Jun Miyake.

Passado. Apesar de hoje deter o status de estrela, Jun Miyake não teve uma adolescência muito fácil. Filho de um rígido professor de química, o jovem, então com 16 anos, não podia ouvir música em casa. Controlador, seu pai abominava qualquer tipo de barulho. Um simples abrir de porta já era suficiente para irritá-lo. Crescer em um “ambiente musicalmente” hostil fez com que Jun Miyake passasse a amar muito mais sua futura profissão. “Meu pai não suportava barulho. Lembro de uma vez que pisei mais forte na escada e ele brigou comigo. De alguma forma, isso me fez apreciar a música mais intensamente. Quando decidi sair de casa para estudar jazz, eu não recebi qualquer tipo de apoio. Hoje, entretanto, a relação é saudável”, acrescenta.

JUN MIYAKE E RYUICHI SAKAMOTO

Auditório Ibirapuera. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, tel. 3629-1075. Dom. (7), 18h. Grátis.

‘Kontakhof’, cenas breves que valem um mundo*

Em ‘Pina’, de Wim Wenders, três temas do compositor honram a artista que dizia que, fora da dança, não há salvação

Jun Miyake já havia colaborado com Pina Bausch nas coreografias de Vollmont, Sweet Mambo e Como El Musguito En La Piedra, Ay Si Si... e foi o que o levou a Wim Wenders. Existe até tese, de Cristiane Wosniak, que busca refletir sobre como a voz do corpo dançante se instaura em Pina, o documentário de Wenders, como signagem – neologismo criado por Décio Pignatari para evitar o termo linguagem ao abordar fenômenos não verbais. Não se assuste que a coisa não é tão complicada.

O Tanztheater – teatro-dança – de Pina Bausch criou o ‘Kontakthoff’, uma série de cenas sem ligações aparentes, mas que se ligam por meio de encontros breves em que homens e mulheres representam o que pode ser a união dos sexos. Atração, sedução, manipulação, repulsa, etc. Os corpos dançantes expressam isso movendo-se, no tempo e espaço, por meio da música. 

Miyake tem 3 músicas na trilha de Pina – Lírios do Vale, O Aqui e o Depois e Todos os Nomes. Dançadas, atingem a transcendência que Miyake tanto busca. Wenders e ele levaram adiante o projeto, após a morte da artista, convencidos de que só assim honrariam Pina, que dizia a seus bailarinos – “Dancem, dancem, senão estaremos perdidos.” *Por Luiz Carlos Merten

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