Trocando de biquíni sem parar

Houve uma época em que o mundo só falava do Minau. O cara era poderoso. Phil Collins, que parecia tão machão, fez uma música apaixonada para ele que dizia "teicaluque Minau". O Duran Duran lhe dedicou versos tristes nos anos 80 cantando "don seivaprê for Minau". E a dupla Jerry Goffin e Michael Masse ficou milionária ao criar uma canção melancólica e muito regravada até hoje que diz, pausadamente, "rou Minau, tóti Minau, ai don uana live uidautiu".O Minau era o "me now" em inglês, que virou um moreno alto e sensual na cabeça de Maria Fernanda Fernandes, uma estudante de turismo que passou anos querendo saber qual seria a cor dos olhos do Minau. As versões que o imaginário coletivo faz de certas músicas são tão fartas e originais que foram parar na Internet. O blog Virunduns (http://virunduns.blogger.com.br), criado por três amigos paulistas, funciona há um mês e recebe 20 mensagens por dia. Ele traz uma hilariante coleção de barbaridades poéticas que as pessoas criam sem saber porque não entendem o que o cantor diz (leia mais). Muitas ficam mais famosas - e algumas melhores - que as próprias gravações originais.Cláudio Zoli conseguiu fazer uma música sua ser mais famosa do que ele mesmo. Noites do Prazer não só o projetou como atiçou a criatividade alheia. A letra que diz que a vitrola está rolando um blues e "tocando B.B. King sem parar" caiu nos lábios do povo para virar "trocando de biquíni sem parar", "tocando de biquíni sem parar", "tocando Jimmy Cliff sem parar" e "tocando Vibiquing sem parar."Quem merece mesmo o Grammy é Djavan. Nenhum outro compositor tem tantos casos de "virunduns" quanto ele. Nas mensagens enviadas ao blog, aparece a parte original de Açaí - "açaí, guardiã, zum de besouro, um imã, branca é a tez da manhã" - sendo cantada como "ao sair, guardiã, zumdibizum, um limão, branca é às três da manhã". O "amar é um deserto e seus temores", de Oceano, vira sempre "a maré é um deserto e seus temores." "Eu não entendia. Como algo molhado pode ser seco ?", pergunta Arnaldo Branco."Jesus espatifou"- Suzy Hong, "virundunzeira" que escreve com freqüência, dá sua explicação ao fato de alguns compositores serem tão "mal interpretados". "Eles é quem deveriam cantar com mais clareza." Ela ficou dos 15 aos 28 anos declamando bizarrices em uma parte de Pintura Íntima, do Kid Abelha. O que para Paula Toller era "fazer amor de madrugada, amor com jeito de virada" para Suzy era "fazer amor de baixo d´água, amor com jeito de piaba."Mesmo sem nunca ter levado uma piaba de quem a escutou calado por todo esse tempo, Suzy ainda associa a falha à falta de uma cultura de karaokê no Brasil. "Na Coréia e no Japão é muito mais difícil as pessoas cantarem errado porque praticam muito com o karaokê." Ian Black, nome artístico de José Câmara, um dos pais do blog, teve uma surpresa quando colocou a página no ar. Não esperava um retorno tão farto.Ele - que passou a adolescência cantando uma música do Erva Doce que dizia "moreno, alto, bonito e sensual" como "morei no alto, bonito e sensual" - virou um estudioso. Disponibilizou ontem o Primeiro Concurso de Virunduns no blog. As pessoas só precisam baixar a canção "O Elefante" de Robertinho do Recife - segundo Black, um manancial de versões esdrúxulas - e mandar suas interpretações. Black está certo que virá de tudo. "Esta é batata." Só, talvez, nada tão escabroso quanto o caso de Fernando Mackert, que tem um disco evangélico com a canção ´Glory Hallellujah´ em inglês. Ele jura por todos os santos ouvir o refrão "His truth is marching on" como se fosse uma maldição: "Jesus espatifou".

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.