Trio Los Anggeles, em busca do rebolado perdido

O Canal do Boi, uma emissora rural que pega nos confins do Amazonas, tem grande audiência quando convida o Trio Los Anggeles para cantar. Não há muito recurso - o programa é gravado no meio de um pesqueiro em uma estrada que liga Campinas a Mogi - mas é a glória para os artistas.Márcio Mendes, com peito de caminhoneiro à mostra, cabelos teimosos em disfarçar a calvície dos 48 anos, linhas de expressão atenuadas pelo botox e tiques de galã latino, canta em playback a mesma Vamos Dançar Mambolê, que em 1982 dobrava a audiência dos programas de Raul Gil e Chacrinha e lhe garantia disco de platina.O Los Anggeles, com um gê a mais desde que uma numeróloga ligou do nada para a casa de Mendes, segundo o próprio, para falar que ele seria mais feliz se alterasse o nome do seu grupo e usasse mais branco e rosa, vive em uma submídia desde que esgotou seu tempo nas grandes emissoras. Seus dias de cantar para as vacas do Canal do Boi, agora, podem estar perto do fim.Mendes está, como no período de 82 a 95, à frente de duas vistosas morenas que mais dançam do que cantam. Exausto da espera de que uma gravadora voltasse a abençoar sua vida, foi para um estúdio em Feira de Santana, na Bahia, e produziu com dinheiro do próprio bolso um disco para comemorar os 20 anos da criação do trio. Sábado, no bar e restaurante Sapori di Rosi, Edifício Copan, fará um show com as meninas para lançar o trabalho.As ex-parceiras originais, Ana e Cléo, deixaram o grupo. Cléo engravidou em 1992 e seu marido preferiu que ela não voltasse aos palcos. Ana saiu para cuidar das duas filhas. As novas que aparecem discretas na capa do disco, ofuscadas pelas caras e bocas de Mendes em foto bem maior, são Adriana e Madalena.Márcio Mendes diz que "foi tachado de muita coisa que não era". "Ouvi pessoas dizerem que eu não sabia cantar, que era oportunista, que abusava de mulheres para fazer sucesso. Nunca houve nada disso, sempre fui natural." Defende-se ainda dos críticos de sua voz. "Nunca falei que era um cantor. Sou um artista que aprendeu a cantar."Tijoladas da crítica não foram fortes para derrubar um grupo que conseguia ter músicas, por mais malditas que fossem, até em trilha de novela da Globo. Com a saída do Brasil da Copa de 82, as gravadoras que lançariam álbuns sobre futebol foram pegas no contrapé. Para compensar, começaram a soltar discos de artistas secundários. Nessa leva veio o Los Anggeles.Mendes, que cantava com o irmão, teve a idéia de virar latin lover. Escalou duas mulheres e foi cuidadoso nos detalhes. "Sempre pensei que sou um produto e que devo cuidar de minha embalagem. Claro que todos nós artistas queremos ter boas vendagens para sobreviver."Quando não veio das vendagens, a sobrevivência teve a moda como fonte. Mendes chegou a ter duas escolas de manequim. O que ainda possui é uma fábrica de confecção de roupas. Os shows nos anos em que não esteve presente na mídia foram intensos, mas em interiores dos mais improváveis. O Trio Los Anggeles faz a alegria de gente tanto do Macapá, no Amapá, quanto do Chuí, no Rio Grande do Sul. "Não estou na Globo ou no SBT, mas tenho um espaço muito grande em emissoras de tevê, jornais e rádios destas cidades."O Canal do Boi é bom, faz sua agenda encher de pedidos de agro-empresários loucos em embalar suas festas com música caribenha. Mas nada se compara à época em que, em um mesmo dia, participava do Cassino do Chacrinha, no Rio, vinha a São Paulo cantar no Viva a Noite e, ao final, corria de volta ao aeroporto para pegar um jato em direção a uma boate em Salvador. Se a numeróloga que liga do nada estiver certa, a fartura voltará.Trio Los Anggeles. Sábado, às 22h. Sapori di Rosi (Av. Ipiranga, 200. Tel. 3120-4442). Ingressos: R$ 10.

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