Trilha de "Christiane F." volta remasterizada

Classe, classe, classe. Volta à baila, devidamente remasterizada e com nova produção visual a trilha sonora original de Eu, Christiane F, 13 Anos, Drogada e Prostituída (1981), filme de Ulrich Edel baseado na história real da alemã Christiane Felscherinow - conforme ela foi contada pela revista Stern em meados dos anos 70. O autor da trilha é David Bowie, que foi tocado pela história e permitiu o uso de canções dos álbuns Heroes (1977), Station to Station (1976), Lodger (1979), Stage (1978, ao vivo, documentando uma turnê) e Low (1977). Na época, Bowie vivia ainda sob a égide performática de personagens musicais que tornou famosos, como o White Thin Duke.A trilha abre com um espetacular míssil sonoro da lavra de Florian Schneider, do Kraftwerk, a composição V-2 Schneider (contida no álbum Heroes, de 1977). A faixa Heroes é cantada numa alternância de alemão e inglês por Bowie, acentuando a crueza da interpretação - ela já fora gravada também em francês, conforme nos lembra Mark Adams nas notas do disco.Em contraste com o aparente realismo narrativo do docudrama do diretor Ulrich Edel, a seleção de músicas de Bowie atende a um princípio de grande intensidade emocional, coisa que fica clara no registro ao vivo de Station to Station - um crescendo admirável que passa da contemplação à explosão, do progressivo ao hard rock em segundos.Look Back in Anger, de 1979, é trilha para uma fuga vertiginosa pelas ruas da então dividida Alemanha Ocidental. Guitarras moderníssimas, antimelódicas, contrastando com a voz expressionista de Bowie, revitalizam a saga junkie de Christiane. Para contrapor-se à atmosfera de esfacelamento da trama, vem o balanço funk de Stay para dar um break.Para fechar, a quase desconhecida Warszawa (do álbum Low, de 1977). É uma visão pré-eletrônica, mas está mais para o devastado Vale do Rohr do que para as paisagens multicoloridas de Moby. Brian Eno, tio-avô do Prodigy, é quem dá as cartas aqui.A história do encontro entre Christiane F. e David Bowie extrapolou as páginas da ficção e tornou-se muito mais próxima do que pensávamos. Mas essa é uma grande história para outro filme. Na saga infernal da jovem Christiane, o que dá o tom é a música de Bowie, sempre magnífica e particularmente tocada pelo drama da sua protagonista.

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