Tributo revive a obra de Sidney Miller

Quando ouviu as músicas do meninoSidney Miller, em 1966, Nara Leão gostou tanto que não conseguiuescolher uma para gravar. Escolheu cinco. Saíram todas no discoPede Passagem. O título do elepê era o de um samba deSidney: "Chegou a hora da escola de samba sair/ Deixar morrendono asfalto uma dor que não quis/ Quem não soube o que é teralegria na vida/ Tem toda a avenida pra ser muito feliz."Falava-se, naqueles tempos difíceis, por metáforas. Mas ointerlúdio idílico do carnaval não era, para Sidney Miller, umaatenuante (como apareceu e aparece tantas vezes na músicapopular); nem mesmo representava um possível motorrevolucionário (na tese tão cara a Chico Buarque). O que sevilumbra nos versos do samba é a desilusão inapagável. Osúltimos versos dizem: "Vai, balança a bandeira colorida/ Pedepassagem pra viver a vida."Não deram. Sidney Miller morreu no dia 16 de julho de 1980, aos35 anos. Deixou obra relativamente curta e, de ponta a ponta,extraordinária. Deixou músicas inéditas. Uma delas vai sercantada na terça-feira pelo parceiro Cláudio Jorge, no Tributo aSidney Miller organizado pela família (viúva e filhos) docompositor e produzido por Tânia Meliga e Augusto Pinheiro.Será essa a primeira vez, quase 22 anos passados desde a mortede Sidney, que sua obra merecerá revisão, resgate. Ele foi umdos compositores mais importantes da música brasileira. Gravoupouco: três discos. Em 1967, o elepê Sidney Miller, no anoseguinte, o paratropicalista Brasil - Do Guarani ao Guaraná.Em 1974, Línguas de Fogo. Em 1983, Hermínio Bello deCarvalho produziu e a Funarte (Fundação Nacional de Artes)editou o disco Sidney Miller, com inéditas. Em algumas faixasconseguiu-se recuperar a voz de Sidney, gravada em fitasdomésticas; Antônio Adolfo escreveu arranjos a posteriori.Nenhum dos quatro discos foi reeditado.O tributo começa na segunda-feira, às 18 horas, na SalaFunarte - Sidney Miller, no centro do Rio (Rua da Imprensa, 16,telefone 0--21 2279-8189). Ele trabalhava na Funarte, quandomorreu. Dirigia o aconchegante auditório em que levou à cenaalguns espetáculos memoráveis.Amigos e admiradores de Sidney vão falar sobre artista e obra,num encontro aberto ao público, mediado por Sérgio Cabral econtando com a participação de, entre outros, Haroldo MarinhoBarbosa, Luiz Carlos Sá, Sérgio Santeiro, Tárik de Souza, JardsMacalé, Gutemberg Guarabyra.No hall, haverá exposição de fotos, manuscritos, objetospessoais do compositor. Na terça, a partir das 18h30, um showdirigido pela compositora Ana Terra lembrará a música.Participarão, em ordem alfabética: Alaíde Costa, AugustoPinheiro, Célia Vaz, Cláudio Jorge, Dóris Monteiro, EltonMedeiros, Família Roitman, Fernando Leporace, Grupo Taluá,Gutemberg Guarabyra, Juliana Caymmi, Luiz Carlos Sá, JardsMacalé, Marianna Leporace, Marília Medalha, Paulinho da Viola,Quarteto em Cy, Sérgio Ricardo, Sueli Costa, Zé Maria, Zé Rodrixe Zezé Gonzaga.Os filhos Carlos e Joana Miller produziram, apenas paradivulgação do tributo, parte do projeto, uma caixa com dois CDsque contém parte da criação de Sidney, interpretada por ele; doprimeiro disco, participa Nara Leão; o segundo é o registro doshow Pala Palavra, do Projeto Almirante, da Funarte, montado porHermínio Bello de Carvalho, em 1983. Cantam Alaíde Costa, ZezéGonzaga e Zé Luiz Mazziotti.A primeira faixa do primeiro disco traz a toada A Estrada e oVioleiro, com que Sidney ganhou prêmio de melhor letra (haviaisso!) no 3.º Festival de Música Popular da TV Record, em 1967.Aquele júri precisava premiar o novato, mas era uma escolhacomplicada. Quem venceu o festival da Record de 1967 foi EduLobo, com Ponteio (letra de Capinam). Em segundo lugar ficouDomingo no Parque, de Gilberto Gil; em terceiro, Roda Viva, deChico Buarque; em quarto, Alegria, Alegria, de Caetano Veloso.Era comum que se comparassem Sidney Miller e Chico Buarque.Pareciam parecidos - não eram. Em comum, tinham o trabalho depoesia precioso sobre estrutura melódica e harmônica deaparência simples, além do olhar crítico. Mas o que em Chicosempre foi alento, em Sidney era desilusão. Foi um doscompositores mais tristes da história da música brasileira.A matriz de ambos é urbana, mas Sidney aventurou-se numamemorável série de composições que partiam de cantigas de roda -Marré-de-Cy (grafado assim, pelo autor), Passa, Passa, Gavião, AMenina da Agulha. Seu maior sucesso foi a marchinha O Circo,adorada por crianças e marmanjos ("Vai, vai, vai, começar abrincadeira, tem charanga tocando a noite inteira..."). Entrechorinhos, sambas e serestas, criou o canto mais emblemático dosanos de chumbo, a toada Pois É, pra Quê? - que termina assim:"No fim do mundo tem um tesouro/ Quem for primeiro carrega oouro/ A vida passa no meu cigarro/ Quem tem mais pressa quearranje um carro/ Pra andar ligeiro sem ter porque/ Sem ter praonde, pois é, pra quê?"

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