Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Tributo no meio século da morte de Edith Piaf

O cantor Fábio Jorge grava CD com os hits da cantora, morta em 1963

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

15 de dezembro de 2013 | 21h00

Nos 50 anos de morte da mais popular cantora francesa de todos os tempos, Edith Piaf (1915-1963), um fã brasileiro, Fábio Jorge, lança uma antologia com 11 de suas mais conhecidas canções, reunidas no CD Edith. Curiosamente, Fábio Jorge ainda é um cantor cult, conhecido apenas no circuito teatral e em alguns clubes onde costuma se apresentar nos fins de semana. É o tempo que tem livre para soltar a voz. Durante a semana, Fábio trabalha num sebo de discos da Rua Augusta, onde os frequentadores, vez ou outra, ouvem o intérprete cantar La Vie en Rose ou Non, Je ne Regrette Rien no velho CD player da loja. Foi lá que ouvi pela primeira vez a voz desse chansonier, filho de mãe francesa. Chamava a atenção o francês perfeito do intérprete, capaz de traduzir o drama de uma mulher da noite que perde na guerra seu companheiro, um soldado acordeonista.

E foi justamente para a triste canção L’Accordéoniste, de Michel Emer, eternizada por Piaf, que Fábio Jorge pediu ajuda ao renomado Toninho Ferragutti, o correspondente brasileiro do francês Richard Galliano. Ele não conhecia o acordeonista pessoalmente, mas tomou coragem e postou uma mensagem no Facebook, convidando-o a participar do CD. Para sua surpresa, Ferragutti aceitou. O resultado é uma das melhores faixas da antologia, que tem ainda o pianista Alexandre Vianna e o baixista Decko Telles.

Conhecido da comunidade artística, Fábio é obsessivo. Adolescente, viu o musical Piaf, que Bibi Ferreira estreou em 1983, e voltou outras 25 vezes. Um dia, ao conseguir o número do telefone da atriz, ligou e pediu a partitura de Bravo pour le Clown. “Você deve estar maluco, pois ninguém além de Piaf seria capaz de cantar isso”, ouviu dela. Bem, Fábio insistiu e cantou. Ele mostra o vídeo em que, com um nariz de palhaço, ri da má sorte do protagonista da canção, um palhaço traído pela mulher e roubado pelo próprio filho.

Vale lembrar que as canções de Piaf (especialmente La Vie en Rose ou L’Hymne à l’Amour) carregam pesadas referências autobiográficas da cantora, que, abandonada pela mãe, viveu num prostíbulo comandado pela avó paterna, cantou nas ruas de Paris e, casada com um humilde entregador de mercadorias, perdeu uma filha de 2 anos com meningite – além do grande amor de sua vida, o boxeador Marcel Cerdan, num desastre de avião. Isso tudo legitimava sua interpretação de Bravo Pour le Clown. E Fábio Jorge?

“Certo dia, um amigo me perguntou como eu poderia entender e cantar o repertório de uma mulher como Piaf, sendo eu um homem, e eu respondi que, quando você o faz com verdade, não encontra obstáculos.” O cantor, aliás, fez sua estreia num show, em 2004, com clássicos que eram a marca registrada de cantoras – como Dolores Duran, de A Noite do Meu Bem. A canção aparece no segundo CD de Fábio Jorge, Chanson Française 2, de 2011, que tem como convidado especial Cauby Peixoto, dividindo a sexta faixa, Adieu, versão francesa de Pra Dizer Adeus (de Edu Lobo e Torquato Neto).

Cauby foi apresentado ao cantor pelo produtor Thiago Marques Luiz, que acompanha Fábio Jorge desde o começo. “Nunca tive a intenção de ser profissional, mas as coisas foram acontecendo e passei a me apresentar em bares e teatros.” Filho de uma família de classe média, começou a gostar de música ao ouvir velhos discos no sítio do avô, que nasceu na fronteira franco-suíça. “Era fascinado pela voz de Piaf desde menino e, como aprendia francês, passava os domingos prestando atenção às letras das canções, especialmente as de Piaf.” Entre elas, estão no CD clássicos como Padam Padam e Je Sais Comment. Piaf não poderia receber melhor homenagem.

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