Peer Lindgreen
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Trevor Pinnock rege obras dos autores na Sala São Paulo

Inglês é referência na interpretação de Mozart e Haydn

João Luiz Sampaio, ESPECIAL PARA O ESTADO

06 de junho de 2017 | 06h00

A entrevista é com o maestro, mas a conversa logo gira na direção do solista, o flautista suíço Emmanuel Pahud. “Desde que nos conhecemos, há dez anos, e trabalhamos juntos em uma gravação da música de Bach, revelou-se para mim um artista que faz música com todo o seu ser, não apenas com o intelecto, com uma sucessão de notas”, diz o regente inglês Trevor Pinnock. É uma boa definição – que por sinal poderia facilmente ser aplicada também a ele.

Pinnock e Pahud tocam Nesta terça, 6, e quarta, 7, na Sala São Paulo, ao lado da Orquestra de Câmara de Potsdam, pela temporada da Cultura Artística. Primeira-flauta da Filarmônica de Berlim, orquestra para a qual entrou com apenas 22 anos, Pahud vai interpretar concertos de Mozart e Devienne, autores que simbolizam, em suas palavras, “um era de ouro para a flauta como instrumento solista”. Mas o programa tem ainda sinfonias de Haydn e Mozart, duas especialidades de Pinnock.

“Haydn era um homem mais velho, e com certeza influenciou Mozart. No entanto, em toda a sua experiência, não hesitou em absorver elementos propostos pelo colega mais jovem. A relação entre esses dois criadores maravilhosos é por isso mesmo fascinante. E como músico é um prazer dar vida a ela em um mesmo programa. É curioso esse papel de intérprete. Eu costumo telefonar para esses grandes compositores, conversar um pouco com eles. Mas não me furto de uma questão central: que tipo de resposta pessoal eu posso dar a essa música?”, brinca Pinnock.

Definir alguém como uma lenda costuma dizer muito e nada ao mesmo tempo a respeito dela. Mas, no caso de Pinnock, sua importância para a história da interpretação da música do século 18 está documentada em dezenas de gravações nas quais ajudou a dar forma à música historicamente informada, aquela que busca por meio de pesquisas compreender o estilo, as técnicas e outros aspectos da interpretação da época em que as obras foram compostas.

“Nós precisávamos naquele momento de uma nova exploração para podermos seguir adiante como intérpretes. Esse foi o caminho que encontramos. Foram décadas excitantes. Saber que de alguma forma pudemos fazer as pessoas ouvirem a música de autores como Haydn, Mozart ou Bach de uma forma diferente é algo muito especial”, ele explica, referindo-se aos anos 1970, quando iniciou sua trajetória profissional.

A relação com a música, no entanto, é muito mais antiga. “Meus pais diziam que, com 2 ou 3 anos de idade, durante uma viagem ao litoral, uma banda de metais estava tocando perto da água. E eu comecei a dançar, sem parar”, lembra o maestro, hoje com 70 anos. “Eu obviamente não me recordo do fato em si, mas algum tipo de memória intuitiva permanece. Pois basta que eu comece a fazer música para me sentir tocado e realmente vivo. Essa emoção não se desfaz e isso me parece uma sorte.”

A música, ele explica, tem corpo. É vida. “Ao menos foi essa de alguma forma a relação que construí com ela. Por conta disso, o momento em que se está no palco é o momento de exercício da honestidade. Não há espaço para o ego, mas isso não quer dizer que tocar não seja a expressão mais completa do que é um ser humano. Daí talvez venha também a sensação de que a música de autores como Haydn ou Mozart soa aos meus ouvidos como se tivesse sido composta hoje de manhã.”

Pinnock gravou todas as sinfonias de Mozart. Nos últimos anos, no entanto, tem se dedicado pela primeira vez às óperas do compositor. “Uma revelação”, ele define. “Mozart é essencialmente alguém que compõe para a voz, que pensa o instrumento de forma vocal. Assim, experimentar essa relação em obras vocais é algo importante.” Isso de alguma forma o tem influenciado em suas interpretações mais recentes. E se não for isso, é o desejo, como ele define, “de se aproximar cada vez mais de algumas obras”. “Quando se submete a um dogma, perde-se certo frescor. O novo pelo novo, ditado pelo mercado, é um perigo que ronda o intérprete. É preciso combatê-lo.” Como? “Viajando, de forma pessoal, em direção ao centro de uma obra.” A resposta talvez soe simples – mas esconde diversos mundos a serem descobertos.

TREVOR PINNOCK E EMMANUEL PAHUD

Sala São Paulo. Pça. Júlio Prestes, s/nº, tel. 3256-0223. 3ª (6/6) e 4ª (7/6), 21 h. R$ 25 / R$ 215

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