Clarissa Lamberti
Clarissa Lamberti

Três óperas são montadas em São Paulo em ano difícil para o gênero

Peças de Mozart, Bizet e Verdi ocupam palcos da cidade

João Luiz Sampaio, Especial para o Estado

30 Outubro 2017 | 06h00

Um conquistador lendário, uma sacerdotisa hindu, uma cortesã na Paris do século 19. Don Giovanni, de Mozart, está em cartaz desde sábado no Teatro São Pedro; Os Pescadores de Pérolas, de Bizet, estreia nesta segunda, 30, no Teatro Municipal; e, também nesta segunda, uma produção de La Traviata, de Verdi, ocupa o Teatro Sérgio Cardoso, depois de breve turnê pelo interior do Estado. Três personagens, três óperas em cartaz na cidade – uma coincidência feliz em um ano que não tem sido fácil para o gênero.

Os números são pouco animadores. No Municipal, houve até agora apenas duas – em 2016, foram quatro. Os festivais de Belém e Manaus realizaram edições mais enxutas. No Municipal do Rio, apesar de produções como Jenufa e A Tragédia de Carmen, a temporada tem convivido com paralisações pelos atrasos no pagamento de salários, que na semana passada levaram também ao cancelamento do balé O Lago dos Cisnes.

+ O que vai acontecer com a ópera?

Don Giovanni é a segunda ópera apresentada pelo São Pedro após a chegada, no final do primeiro semestre, da Santa Marcelina Cultura à gestão do teatro. A programação inclui ainda a opereta La Belle Hélène, de Offenbach, em novembro. A depender da renovação do contrato de gestão no final deste ano, a entidade terá a próxima temporada para consolidar a nova proposta de repertório e de atividade pedagógica.

A produção é a mesma apresentada no Festival do Theatro da Paz em setembro deste ano, com direção de Mauro Wrona e cenários de Nicolas Boni, mas com novo elenco e direção musical, agora a cargo do maestro Claudio Cruz. No entanto, tudo precisou ser reconstruído em São Paulo, segundo a Santa Marcelina, por questões de custo e logística: as dimensões dos palcos são diferentes, havia o risco de que o tempo necessário para o transporte dos cenários gerasse atrasos nos ensaios e nas récitas e houve divergências quanto aos termos de cessão de figurinos. 

No Municipal de São Paulo, o clima ainda é de incertezas. Depois de Os Pescadores de Pérolas, não há nenhuma confirmação oficial a respeito de outros projetos ainda para esta temporada. O teatro está sem diretor artístico desde que o Instituto Odeon assumiu sua gestão, em setembro. Não há previsão para o anúncio de um nome, nem posição oficial sobre a informação de que a agenda está sendo preparada por um conselho artístico, composto pelo secretário municipal de Cultura André Sturm, o maestro Roberto Minczuk, o coreógrafo Ismael Ivo e Carlos Gradim, presidente do Odeon. Que papel a ópera terá nas temporadas futuras também é uma incógnita. 

Don Giovanni. Coincidência ou não, Don Giovanni subiu ao palco do Teatro São Pedro, na noite de sábado, na véspera do aniversário de 230 anos da obra, estreada em 1787. Que a ópera tenha seguido no repertório desde então não chega a ser surpreendente quando se ouve a perfeita combinação entre texto e música – e a investigação da alma humana que ela possibilita. 

Mas a produção paulista não relembrou apenas a genialidade do compositor. Apesar dos mesmos cenários, figurinos, diretor, o Don Giovanni estreado no sábado acabou resultando em um espetáculo diferente daquele apresentado em Belém no início de setembro, relembrando outra das verdades do mundo da ópera, a de que, em uma mesma montagem, um elenco novo pode dar outros significados a uma história.

A construção repleta de nuances e coloridos do barítono Leonardo Neiva dá a Don Giovanni uma dimensão ampla. Cômica, com certeza; com o desejo como protagonista; mas sem abrir mão do senso trágico que, construído ao longo da ópera, dá maior sentido à cena final, em que ele se recusa a se curvar perante o Comendador, preferindo ser tragado pelo inferno em vez de se arrepender do modo como viveu. 

Paradoxalmente – ou não, para uma obra definida como um “drama brincalhão”, na tradução de Leonardo Martinelli para “dramma giocoso” – o senso teatral do baixo-barítono Saulo Javan como Leporello reforçou o caráter cômico da narrativa, encontrando eco no desempenho de Luciana Bueno como Donna Elvira, de Gustavo Lassen como Masetto ou de Carla Cottini como Zerlina. Rosana Lamosa oferece uma Dona Anna construída de maneira sólida, que se ressente da falta de um Don Ottavio (o tenor Caio Duran) mais expressivo e de voz mais adequada.

A leitura do maestro Claudio Cruz é atenta ao estilo mozartiano, com especial foco às articulações e ornamentações. Os pontos altos foram os momentos de maior introspecção, como as árias “Non mi dir”, de Donna Anna, ou “Mi tradi”, de Donna Elvira, em que pesem outras passagens nas quais a tensão teatral acabou se perdendo.

DON GIOVANNI

Teatro São Pedro. Rua Barra Funda, 161, tel. 2122-4070. 

2ª (30), 4ª e 6ª, 20h; dom., 17h. 

De R$ 30 a R$ 80.

Os Pescadores de Pérolas. Em 1995, o diretor Naum Alves de Souza recebeu um convite pouco usual: preparar para o Teatro Municipal de São Paulo uma nova produção da ópera Os Pescadores de Pérolas, de Bizet. A surpresa tinha a ver, acima de tudo, com o título escolhido. Ópera da juventude do compositor, ela nunca alcançou a mesma fama de Carmen, em parte por conta de seu enredo: um triângulo amoroso ambientado nas praias do Ceilão, aterrorizadas pela paixão proibida entre o jovem Nadir e a sacerdotisa Leilah. 

“É uma história ingênua”, disse o diretor ao Estado na época da estreia. Mas as reservas com relação ao texto não o impediram de criar uma das mais bem-sucedidas produções da história recente do Municipal, que voltou ao palco em 2005 e agora ganha nova temporada, em homenagem da Orquestra Experimental de Repertório e seu diretor Jamil Maluf ao encenador, morto no ano passado – a remontagem da cena fica a cargo do diretor João Malatian: em 2006, ele assinou uma produção de Orfeo, de Monteverdi, em parceria com Naum, que criou cenários e figurinos.

Malatian mantém vivo o espírito da concepção do diretor que, perante a história de Bizet, adotou o que ele chamou de olhar realista, mas sem abrir mão de efeitos delicados e dramaticamente eficientes, como a presença da água como cenário para o desenrolar da ação. Sempre, em suas palavras, com a música como guia: “É uma partitura muito forte, então quis aproveitar a todo instante o que ela me sugere”.

O elenco da produção é composto pela soprano Camila Titinger, como Leilah, pelo tenor Gustavo Quaresma, como Nadir, pelo barítono David Marcondes, como o pescador Zurga, e pelo baixo Matheus França, no papel do sacerdote Nourabad. Titinger, com uma carreira em rápida ascensão e passagem pelos principais teatros e orquestras brasileiras, repete o papel que ela estreou em 2015, quando participou da produção da ópera dirigida pelo cineasta Fernando Meirelles no Theatro da Paz, em Belém, transmitida para cinemas de diversas cidades brasileiras. 

OS PESCADORES DE PÉROLAS

Teatro Municipal. Pça. Ramos de Azevedo, s/nº, 3053-2090.

Hoje, 4ª, 6ª, dom. e 6/11, 20h.

R$ 20 a R$ 60 (hoje e 6/11, R$ 15 a R$ 40)

La Traviata. Peça marca, ao lado de Rigoletto e Il Trovatore, um momento de virada na carreira do compositor italiano Giuseppe Verdi. As três têm como protagonista personagens marginais: uma cortesã, um bobo da corte e um jovem cigano, respectivamente. E não por acaso: na história conturbada de vida dos três, e em sua relação conflituosa com o mundo à sua volta, Verdi enxergava o toque de humanidade e a complexidade de emoções que pautaria a revolução que ele desempenharia no teatro musical italiano ao longo do século 19.

“O que tentamos fazer foi narrar essa história de uma maneira íntima, pessoal, tentando entender o modo como Violeta enxerga e compreende o mundo”, explica o diretor Paulo Ésper, responsável pela concepção cênica. “Tentamos utilizar ao máximo os recursos que tínhamos à nossa disposição, que não eram muitos.” A produção é uma iniciativa da recém-estabelecida parceria entre a Associação Amigos do Teatro Lírico de Equipe e a Cia. Ópera São Paulo, com apoio da Santa Marcelina Cultura, que cedeu o acervo do Teatro São Pedro, a partir do qual Veridiana Piovezan criou os figurinos. A montagem conta com cenário único de Giorgia Massetani.

A produção aposta nos cantores e na direção musical de André dos Santos, que até o meio do ano estava à frente da Academia de Ópera do Teatro São Pedro. É ele que comanda a orquestra formada especificamente para o projeto, um grupo de câmara com a participação de 16 músicos, que estarão no palco, em diálogo com a cena. No elenco da produção, que já passou por Jacareí, São José dos Campos, Taubaté e Araras, estão vencedores da edição deste ano do Concurso Maria Callas, além de artistas convidados. Em São Paulo, Violeta será vivida pela soprano ucraniana Tamara Kalinkina; Alfredo, pelo tenor Daniel Umbelino; e Germont, pelos barítonos Rodolfo Giuliani (hoje) e Erick Souza (quarta). Na quarta, às 18h30, haverá palestra de Sergio Casoy sobre a ópera, às 18h30

LA TRAVIATA

Teatro Sergio Cardoso.

Rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista, tel. 3288-0136.

Hoje e quarta, às 20h. De R$ 40 a R$ 50.

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