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Três aulas para entender Mautner

O caos criativo, a despolitização intencional e as ideias indomáveis em discos da décadas de 70 relançados em CD

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2014 | 02h05

A mãe, iugoslava católica. O pai, judeu austríaco. A babá, ialorixá dos terreiros de candomblé. Jorge Mautner chegou ao mundo um mês depois de seus pais desembarcarem no Brasil fugindo do Holocausto. Cresceu comendo toda a música e as histórias que ouvia ao redor até que elas começaram a lhe voltar interligadas e sem forma. A vida de Mautner, vista sob uma perspectiva histórica proporcionada agora pelo relançamento em CD de seus três primeiros LPs, é milagre de uma natureza artística que sempre tocou violino à beira do precipício.

Os discos estão na caixa Três Tons de Jorge Mautner (Universal Music), com textos do jornalista do Estadão, Renato Vieira. São eles Para Iluminar a Cidade, de 1972; Jorge Mautner, de 1974; e Mil e Uma Noites de Bagdá, de 1976. Um período de seis anos capazes de traduzir, no mínimo, três faces de Mautner que o mundo teima em não entender.

O álbum de 1972, Para Iluminar a Cidade, foi gravado ao vivo no Teatro Opinião por um Mautner com sede de paz, não de guerra. Ninguém entendeu como poderia um álbum de um homem de atuação de esquerda, procurado pelo Comando de Caça aos Comunistas, exilado nos Estados Unidos desde 1965, alinhado com as ideias redemocratizantes de Gil, Caetano e outros banidos, voltar ao Brasil e gravar um álbum sem uma linha de contestação. "Eu queria pacificar, esfriar os ânimos", diz ao Estado. Seu álbum registrado na precariedade das condições ao vivo de 1972 aparecia mais inspirado pelos olhos da cantora Maysa em Olhar Bestial ou pela hipótese de ser um vampiro, um telefone de plástico, uma TV colorida ou, como diz em Quero Ser Uma Locomotiva, a própria locomotiva.

Ninguém entendeu, mas Mautner fazia política cantando Rock da Barata tanto quanto os compositores que versavam em armas. Sua vida artística havia começado no combate quando lançou, em 1966, um compacto com Não, Não, Não de um lado e Radioatividade do outro. Ignorar a ditadura, agora, se tornava necessário para lembrar que o País era maior do que qualquer revolução e que ninguém poderia proibir o ato político de ser feliz.

Dois anos depois veio Jorge Mautner, compensando toda a ausência de produção do disco anterior. Gilberto Gil, que aparece na ficha técnica como diretor de produção e de estúdio, estava identificado com as ideias tropicalistas de Mautner havia anos, antes mesmo que a Tropicália existisse. "Mautner é um pré e um hiper-tropicalista", disse Caetano quando o conheceu.

O que o impediu de participar da amálgama tropicalista de corpo presente no momento em que os baianos lançavam Alegria Alegria (Caetano) e Domingo no Parque (Gil) no Festival da Record de 1967 foi o exílio. Ao voltar, em 1972, a festa já havia acabado. "Não, ela não acabou", diz. "O tropicalismo está vivo em todos os lugares."

Nas mãos de Gil, Jorge Mautner voou mais alto. Em forma e em boa fase, lançava um jovem tecladista chamado Roberto de Carvalho (que assinava ainda sem o "de" e que mais tarde seria marido, músico e produtor de Rita Lee) e disparava um torpedo de nome Maracatu Atômico, depois regravado por Gilberto Gil e Chico Science. Acertaria muito mais, sobretudo nos frutos das composições com Nelson Jacobina, como em Cinco Bombas Atômicas, Herói das Estrelas, Um Milhão de Pequenos Raios e Herói das Estrelas.

Ao final da audição, o caos já faz sentido e Mautner ganha profundidade até cantando suas onomatopeias mais arriscadas.

O gênio estava posto, só faltava fazê-lo chegar às massas. Quando entra 1976, ele abre mão dos pudores antimercado e se entrega às sugestões da gravadora. Mautner precisava de um disco para tocar nas rádios, e Mil e Uma Noites de Bagdá seria preparado para isso. Este terceiro álbum cai nas mãos do arranjador Perinho Albuquerque, que trabalhava com Gal Costa, para se tornar a primeira investida pop do cantor. E aí descobre-se que dirigir os caminhos de Mautner é impossível pela simples razão de que sua cabeça não funciona em compartimentos. A superfície e a densidade, o radiofônico e o maldito, o regional e o universal não podem ser separados. "Era um disco para eu entrar na onda dos músicos, mas, na verdade, eles que entraram na minha onda", diz, em depoimento do encarte, a Renato Vieira.

O disco tenta a domesticação, arredonda ideias e apara viagens, mas jamais soa pop. Mautner não vai para as rádios e segue maldito aos que tentam encontrar uma proposta em suas imprevisibilidades. "Se algo deu errado, foi um erro de comunicação com o público da época", diz. É um mistério. Afinal, o que explicaria o fato de suas plateias estarem hoje cheias de jovens? Ele acredita que o disco que gravou com Caetano em 2002 e o documentário produzido sobre ele por Pedro Bial em 2012 expandiram suas conquistas sem que ele mudasse uma vírgula. O filho do Holocausto jamais conseguiu se libertar da liberdade.

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